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Prelúdio para arco e flecha apresenta uma poesia de sugestões e entreditos, contenção e mudo desespero, afetividade, abandono e reencontro. A voz é surpreendida pela "dura luz" do poema, e inaugura um espaço de sentidos que navegam, estupefactos, na produção de golpes de deslumbramento. (Luis Maffei)

pequena nota biográfica do autor

Virgínia Boechat nasceu em Belo Horizonte em 4 de setembro de 1977. Depois de passagens pelas cidades de Luanda e do Rio de Janeiro, viveu durante muitos anos em Niterói. Há dois anos mudou-se para São Paulo, onde cursa o Doutorado pela USP. É revisora, professora e realiza pesquisas na área de Literatura Portuguesa.

 

leia o prefácio de António Manuel Ferreira

 

 

Gênero Poesia

Capa Dura

Formato 19,5,0 x 14,0

Páginas 64

Preço R$ 18,00

 

 

 

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O ver claro da poesia

António Manuel Ferreira

 

Herdeiro privilegiado da lição pessoana, Eugénio de Andrade teceu os seus versos à luz de postulados teóricos, definidos não só em textos ensaísticos, mas igualmente em textos líricos marcadamente metapoéticos. É o caso do poema «Ver Claro», inserto no livro Os Sulcos da Sede. Nesse poema, Eugénio diz que «Toda a poesia é luminosa, até/ a mais obscura». Mas para poder encontrar a luz do poema, o leitor precisa de regressar muitas vezes ao corpo das sílabas; precisa de partilhar o ofício do poeta. Ler e escrever são, assim, actividades semelhantes e compartícipes de um mesmo processo de procura da luz. Porque o poema que foi construído pelo poeta também constrói o autor, e há-de construir o leitor em cada leitura renovada.

 

Virgínia Boechat também demonstra um saber poético reificável em textos claramente reflexivos. Veja-se, por exemplo, «A luz do poema», que mantém com o «Ver claro», de Eugénio de Andrade, um liame coesivo de intercomunicação. Repare-se, no entanto, que o poema de Virgínia Boechat é, nos seus mecanismos semântico-retóricos, bem mais impressivo do que o de Eugénio. Com efeito, enquanto no texto eugeniano temos a exposição de uma poética em termos enxutos, quase secos, que emanam do vocabulário do autor, mas não rompem as fronteiras de uma reflexão depurada; em «A luz do poema», a dureza do vocabulário veicula uma carga expressiva que derruba os resguardos teóricos, implicando, desamparadamente, a emotividade do sujeito lírico. Eugénio diz que «Toda a poesia é luminosa», mas Virgínia vai mais longe e afirma, com uma segurança convincente, que «a luz do poema é dura/perfura veios de sombra/no que parece liso». E a agressividade deste enunciado proemial continua nas estâncias seguintes, por meio de uma selecção vocabular que retoma a isotopia inicial da dureza. Expressões como «longos traços», «esgarça e franze», «retalha a pele inteira», «afia retas fitas» confirmam uma concepção da poesia como duro ofício de desvendamento. Esse processo de revelação não tem que ver apenas com a demanda solipsista do «eu» estritamente considerado, mas alarga-se a uma indagação contextual que inclui as circusntâncias socioculturais e a matriz histórica.

 

A poesia de Virgínia Boechat reunida neste livro enquadra-se, portanto, numa tradição reflexiva, e manifesta um claro entendimento da não existência de criação adâmica, no âmbito da escrita literária. Na verdade, um dos elementos visivelmente essenciais de Prelúdio para Arco e Flecha reside no trabalho de uma inscrição intertextual de dupla e concertada natureza: a interrogação da História e o diálogo criativo com escritores que, integrando-se na deriva histórica, corporizam um mundo de referências poético-vitais. Há, por conseguinte, nesta poesia, um substrato cultural de longo alcance, que ultrapassa as circunstâncias biográficas da autora, e perfura a superfície das coisas, de modo a tornar tangível a matéria magmática que subjaz ao poema. O mesmo é dizer que sendo Virgínia Boechat uma escritora brasileira, a sua escrita filia-se numa genealogia histórico-literária que encontra em Portugal e na geografia cultural lusófona um dos pontos de partida e, em alguns casos, igualmente um ponto de chegada.

 

Não significa isto que estejamos perante uma poesia culturalista, que lide com a realidade brasileira de modo alusivo ou ancilar. Muito pelo contrário, é a topografia espaciotemporal que dinamiza a natureza inquiridora dos poemas, tanto ao nível da língua enquanto construção cultural, como no plano da desocultação dos traços definidores da autora e do seu país. Mas, como é evidente, esse labor de mineralização tem de passar, necessariamente, por percursos luso-brasileiros. Vejamos, de forma breve, alguns textos que exemplificam este modo de reflexão lírica, de algum modo cataforizada no título, porquanto Prelúdio para Arco e Flecha constitui um enunciado isotópico, cuja força expressiva resulta da aproximação de elementos inusitados, mas coerentes. A ideia de concertação é claramente indicada pelos termos «prelúdio» e «arco», cabendo a «flecha» a função de estranhamento criativo, contextualmente descodificável. A coesão semântica e projectiva do título inscreve, portanto, a partir do início, a dimensão perquiridora do livro, juntando, com elegância, os dois campos propiciadores de sentido. «Arco» funciona assim como termo axial, que divide e conglomera ao mesmo tempo, pois tanto aponta para «prelúdio» como para «flecha»; ou seja, a ambiguidade do título sintetiza, de forma admirável, a figuração poética de uma raiz cultural diversamente ramificada, e cujos frutos são portadores de uma natureza nova. Veja-se, por exemplo, o poema intitulado «Carta da baía», que, neste âmbito, me parece ser o mais esclarecedor:

 

por força dos inquietos materiais

que se operam no terreno arenoso

das palavras era 8 de Maio

 

de 1558 e de Manuel da Nóbrega

ficam projetos para algodão e feiticeiros

e ficam o litoral a carta a língua

 

ficam no formato de não serem os mesmos

(…)

 

Uma outra forma de frutificação tem que ver com a intertextualidade explícita, com recurso à citação transformadora. E, neste domínio, avulta a presença de Sophia de Mello Breyner Andersen, num tríptico textual que configura um subgrupo dinamizador de um dos veios de sentido do livro. Sob o título genérico «Andresenianos», reúnem-se três curtos poemas que se apropriam dos estilemas reconhecíveis de Sophia, utilizados, naturalmente, como meio definidor da cosmovisão da autora-leitora. E o que paira nos poemas é a noção de fragilidade associada ao tempo humano. Num dos seus belos poemas de «Homenagem a Ricardo Reis», Sophia adverte Lídia – a silente interlocutora, pouco horaciana, do clássico heterónimo – para a necessidade de cumprir, com urgência, os preceitos existenciais do carpe diem, dizendo, claramente, que não existe «piedade para aquele que hesita», e que o tempo apaga tudo, menos «esse longo, indelével rasto que o não vivido deixa».

 

Virgínia Boechat reconstrói, de forma original e criativa, o pensamento de Sophia («Não, não existe/parede capaz de conter a meia rejeição//Piedade para aquele que hesita»), num propósito intencional que ultrapassa a mera homenagem, para afirmar uma longa tradição de que a sua poesia é herdeira. Interrogando o desenho de «Pedra portuguesa» de todas as «copacabanas» brasileiras, ou revisitando Pessoa, através de Sophia, a poesia de Virgínia Boechat pretende descobrir «com que dedos tocar/a carne arredia da vida» («Caçada»). No fundo, é essa a ambição de todos os verdadeiros poetas. Transformar em «ver claro» a dura «luz do poema».

 

 

António Manuel Ferreira

Universidade de Aveiro