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Tatiana Pequeno, em seu livro de estréia, apresenta-nos poemas que falam de silêncio, movimento e solidão. A poeta realiza uma investigação do mundo a partir de registros de dor e solidão e do diálogo com a poesia portuguesa. Em Réplica das urtigas, além do fortíssimo diálogo com a poeta portuguesa Maria Gabriela Lansol, seu objeto de pesquisa acadêmica, encontramos um empenho em ser/estar um sujeito, ainda que hipotético, em constante estado de metáfora. A cultura de Tatiana Pequeno pode ser observada no uso das epígrafes, extraídas habilidosamente pela jovem poeta que, em seguida, as movimenta de acordo com sua "leitura". Além de Llansol, Réplica das urtigas nos presenteia diálogos com Al Berto ("carta a alberto, ainda em 97") e Chan Marshall ("incisão e álcool para chan marshall ou tradução livre para moon pix"), bem como o prefaciador, Jorge Fernandes da Silveira, há ainda a voz errante de um Luís de Camões. pequena nota biográfica do autor Tatiana Pequeno nasceu no Rio de Janeiro, em 1979, sob o signo de Sagitário. É professora de Literatura, bacharel e mestre em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, por onde prepara tese de doutoramento sobre a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol.
leia o prefácio de Jorge Fernandes da Silveira
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Gênero Poesia Capa Dura Formato 18,5 x 13,5 Páginas 84 Preço R$ 18,00
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Jorge Fernandes da Silveira
À maneira de advertência, palavras de Maria Gabriela Llansol chamam a atenção para o trabalho de leitura exigido pelo primeiro livro de poesia de Tatiana Pequeno. Palavras em epígrafe como se fossem um desses conhecidos avisos que à entrada e nos corredores dos hospitais pedem silêncio. Trata-se na verdade de um quadro mudo. Ler este conjunto de poemas é como ouvir o que diz a enfermeira de boca fechada: voz e legenda são desnecessárias à representação do silêncio. Basta dirigir a atenção para o todo poderoso dedo indicador. Por um lado, ele adverte a quem vem de fora para a mudança de sentido entre a rua e o quarto de hospital; por outro lado, é ele, o indicador, que põe o dedo na ferida entre o real cotidiano e a realidade do poema, noutras palavras, entre a vivência subjetiva e a experiência em poesia. Ao começar o seu primeiro livro com palavras extraídas de um título tão sintomático como Contos do mal errante de Maria Gabriela Llansol, Tatiana Pequeno sabe bem o que significa errar na busca de identidade do sujeito poético em língua portuguesa. Desde o camoniano “[e]rrei todo o discurso de meus anos”, errado é ser estranho a si mesmo, desconcertado, porque sujeito do próprio desejo; errante é estar estrangeiro fora de si, de casa, desafortunado, porque sujeito à vontade alheia.
Assim, começado em “e”, de onde vem esse discurso que se diz contínuo a um outro discurso? Em se tratando de uma epígrafe, de um excerto, pois, o que há e o que não há são da responsabilidade de quem manipula o texto citado ao seu bel prazer. O que se lê no recorte exposto? Em primeiro lugar, um muito interessante acidente no nível do significante entre “constelação” e “consolar-me”, em que, indiferente à correção do uso do hífen, e, sobretudo, da partição silábica, seduz esse cons-, visível e não legível, como uma espécie de ruído provocado para que se perceba nas duas palavras-chave o que interessa para o sentido de contradi(c)ção entre: a) o contínuo e o descontínuo – sem notícia das duas constelações primeiras, sabe-se que a terceira é “consolar-me”, uma forma reflexiva do verbo que é (e dá) “uma ideia de força”; b) o dito e o interdito – consolar-se significa resignar-se, conformar-se, quer dizer também satisfazer-se, compensar-se; consolo, o substantivo, é o que consola, traz conforto, dá consolação, mas é também o consolador, um pênis artificial, uma forma de autoconsolar-se que pode ser “uma ideia de força”, de autocompensação, de autoestima; c) a visão da coisa indefinida que mete medo (“uma imagem, ou um corpo, ou um cadáver”) e a força retórica de combatê-la num cruzamento sintático estratégico (denominado quiasmo), em que já sem a incerta flutuação anterior os extremos trocam de lugar (“um cadáver, um corpo, uma imagem”), para que se atinja o poder semântico de dar aos nomes um sentido alternativo entre o pleno (a tradição) e o vazio (o novo). Observe-se (alínea c acima) que a hipótese de equilíbrio pela alternância de lugar entre termos em posições extremas está na palavra “corpo”, é ela a segunda pronunciada, nela se fixa o eixo por onde giram os limites do humano. Porque esse “corpo” engenhosamente central é humano, está na linha de intersecção onde se cruzam ele mesmo, como imagem do poder humano da fala, e o corpus em que se registram e, logo, se reconhecem todo um repertório de figuras de linguagem definidoras de um sujeito de conhecimento. Como, por exemplo: “uma imagem, ou um corpo, ou um cadáver”. Ou vice-versa. É deste lugar de cultura que escreve Tatiana Pequeno. O que ela lê no recorte extraído em epígrafe está habilidosamente manifesto no primeiro poema do livro. “[R]io” para professoras II”, como um apêndice, apresenta-se de maneira dialogante com a citação de Llansol. Note-se (num título em que “rio” pode ter no mínimo três significações ou “entradas”) a numeração II sem que se tenha notícia da I e, sobretudo, olho vivo para o primeiro verso do poema, em que o mote de uma conversação interrompida pode ser o sinal do que há de abrupto e/ou incontornável a ser glosado em todo o livro: “E levanto a voz em tom ameaçador”. Uma espécie de réplica da legente Tatiana a “[e] a terceira constelação é consolar-me”. A vários títulos importante, o poema inicial deixa em aberto o ponto exato de onde vem a voz que/ ou de quem fala no poema. Isolado dos demais, divididos em três partes, não é, contudo, um corpo estranho no conjunto. É um poema em que a condição de sujeito (a vida) está íntima e dolorosamente associada à condução (sim, o ônibus ou o trem ou o metrô) que a leva ao trabalho (a lida) de professora. Em trânsito entre o registro autobiográfico (o real) e o efeito desejado de realidade (o poema), os versos finais comovem pelo pacto pedagógico de vir a ensinar o aprendido e aprender no ensinado: “(...) E se volto à condição de/ aprender, é grande o impedimento de falar para um/ homem e para a disputa cruel das crianças: posso dar/ o peito do poema a elas e esperar que sejam/ nutridas pela falsidade insustentável de outros/ desconfortos, mas que tragam a mim os alfinetes/ das insígnias que forjarão a narrativa de suas/ dramáticas tragédias encenadas no dispositivo/ insólito do real. (...)”. As três partes que compõem o livro intitulam-se: “esqueletos”, “neurológicas” e “sete e oposições”. Trilogia em cuja formação não há de ser despicienda a lembrança da “terceira constelação” llansoliana, a que pronuncia a opção contrária ao medo, livre da flutuação alternativa, indiciando uma cumplicidade de sentido entre “esqueletos” e “um cadáver”, “neurológicas” e “um corpo”, e “sete & oposições” e “uma imagem”. O apresentador de um livro é um interlocutor privilegiado entre o autor conhecido e o hipotético leitor. Elementar, não? Sim. Tão simples como repetir que “esqueletos” é a primeira parte do livro. Entretanto, há nessa coisa reduzida à sua forma mínima, esqueleto, matéria de outra ossatura, porém análoga, que ganha mais peso semântico quando associada a um termo quase seu par, um seu semelhante sonoro, construído com força nos poemas deste conjunto. Elementar? Sim. Alimentar! “[L]ago” chama-se o primeiro poema. É sobre a “nutrição” de um peixe (“galápago”), um peixe raro, na verdade, que nada contra a corrente do sentido comum de peixe. É no próprio do poético que Tatiana cumpre o pacto assinado no primeiro poema. É neste modo de estar com/ contra o mundo dos signos socialmente impostos que ela ensina como é possível alimentar um esqueleto. Numa espécie de operação do verbo poético, em que um poema como “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa, é já o nome de Poesia, Tatiana, experta em réplicas, “na dor lida sente bem” a sua, a que ela teve. E a diz noutra grafia. “[M]elanografia, por exemplo. Poema que, ao começar (como o primeiro) como se viesse de um outro lugar – “era que me dessem espelho” –, mantém o dedo na ferida que lhe é própria: aprender e ensinar a falar da dor de viver por meio mesmo da doença, não nela mesma, mas sim nos seus espaços de dor e de sofrimento. E de cura. E é por isso que este livro é espantosamente feliz. Ao dizer que falar é sempre manter estendida a linha de uma conversação interrompida, Tatiana é senhora não da agonia, mas da graça de fazer da doença, “ordem descomposta”, como ela bem diz, “espaço fonte fome eu repito fome”. A doença como metáfora viva, pois. Um intervalo entre dois estados plenos: Vida e Morte. Ainda dignos de referência: a) “Dezembro”, por ser o poema que mais diz da tensão entre a lida e a vida, num quadro urbano da paixão, em que sobre acidentes cotidianos representam-se os trabalhos e os dias que informam os sentidos do acidental numa via crucis carioca às vésperas do Natal; e b) “há muitos anos o risco é uma fruta difícil”, belíssimas três estrofes acerca da memória do acidente entre Vida e Morte, para ler com calma em sala de aula. Sobre “neurológicas”, segunda parte do livro, de olhos já experientes acerca dos termos da textualidade em Tatiana, vê-se o dedo indicador, aquele dos hospitais. E ele agudiza a sua pontaria e põe-se com toda a sua força na ferida entre a vivência pessoal da doença e a experiência subjetiva da poesia. Há mesmo uma forma de testemunho nestes versos de “allegro diabolico”, “para os amigos com muitas coisas em água”: “Este era o preço de portar uma montanha negra./ Era a razão emocionada de pertencer à clinica ou/ saber, a partir dela, sob que condições/ a água destruiria a Casa/ e no lugar dela erigiria o fluxo sistêmico (...)”. Uma poética na linha do testemunho, indo ao encontro da família eletiva – o Mann da Montanha mágica (lido igualmente pelo Barthes da Aula), o Bandeira de “Pneumotórax”, a Luiza de “Fractura” – num poema mais longo como o dos versos citados acima, passa por um sofridamente bonito, mais contido, como outros desta parte, de nome “shen. 1”, “para Orides” [Fontela]: “O meu batismo/ a hora/ neste sulco/ onde nado/ em plena bacia de ossos.”. Numa “estirpe” poeticamente exposta, outros versos têm nome de família. Literalmente, desde o princípio. No ritmo da interlocução em curso (“Ainda os folículos na base”), chama-se “maria e rolando” o primeiro poema da segunda série. E bem pode estar o Rolando aqui presente em nome do pai, como pode ser Maria o nome da mãe, em clave de pequenez os dois, aqui misturados a versos outros que falam de filhos verdadeiros ou imaginários, sonhados ou abortados (“sob o tule cor de rosa-bebê nina é só um ser sem nome/ pequeno/ mas/ sobre as margaridas do envazado de madeira/ as moscas festejam como se houvesse/ música para cordas,/ nunca mais entre as minhas pernas”), nessa genealogia de família Pequeno: “Sonho ter o cabelo cinza, usar o véu de nossa/ senhora das dores e saber como foi para ela/ ter vindo de tão longe para viver um poeta morrendo/ nas mãos furadas de cerzir a família/ até ir embora, amarelada, com cravas nas linhas/ e sangue de bala escorrendo no bordado.” Da terceira e última parte direi, parodiando Luiza Neto Jorge: “De mim direi o que deixarem/ as falas que flutuam entre mim.” Sei muito bem que não é de mim que falo, mas sim das falas de Tatiana. Mas, agora em primeira pessoa, peço licença para reduzir a apresentação da terceira parte do livro – “sete & oposições” (“uma imagem”, se mantido o diálogo com Llansol) – à leitura de um único poema. A meu ver o mais belo litoral Não me queixava quando me Por que gosto tanto deste Poema? Gosto destes versos à maneira de “Tatuagem”, de Chico Buarque: “Quero ficar no teu corpo/ feito tatuagem/ que é pra te dar coragem/ pra seguir viagem/ quando a noite vem”. Deles gosto porque, com outra outra referência musical, é verdade, mantêm em diferentes tons (aqui intimista, confessional) a proposição no primeiro verso do livro de ser uma força interlocutora em resposta ou em reivindicação às falas que dão sentido aos seres e às coisas. Gosto, sim, da proposta de consolação outra, num encontro amoroso, em que o claro-escuro (há um fulgor dark a ser analisado nos poemas) da cena tempera com discrição a contradição entre os amantes. Gosto sobretudo deste modo de estar à beira do corpo do outro como se estive num litoral, lugar há muito confortável para o literário saber-se entre o literal e o metafórico. É aqui que Tatiana extrai as suas mais ricas metáforas (versos 7 e 8). São “constelações” por Llansol já contornadas do corpo em marcha do cadáver para a imagem. Entre o registro lírico e o épico, são imagens que alcançam no beijo dado em boa hora na boca de Camões (quer na figura do sujeito errante como forma de vida, quer na figura errada e titânica do Adamastor estampada no rosto) o desejado ponto de fuga. Quero dizer: quanto mais busca abrigo mais o eu poético em Tatiana Pequeno revela-se um corpo ambulatório na sua condição e condução de ser e estar. E ela, já se sabe, tem das míticas mulheres cerzideiras a força do engenho e a sabedoria da arte. Em tão apuradas mãos o pouco dado pelo amante de “olhos fechados e membros cerzidos”, sem consolação menor, mas com um enorme sentido de compaixão de si e pelo outro, desperta-a do sonho à realidade de “ter vindo de tão longe para viver um poeta morrendo/ nas mãos furadas de cerzir a família.” Estar na condição de ser uma hipotética passageira da chuva significa ser um sujeito em estado latente de metáfora (ela mesma um meio de transporte) entre dois pontos obliquamente complementares: a vivência pessoal e a experiência poética. O mesmo que dizer entre o real cotidiano e a realidade do poema. Uma forma de epifania. Modos de transfigurar, numa palavra final, o pétreo silêncio da enfermeira eternamente de plantão nos hospitais e de assinar outra vez o pacto pedagógico já sabido, agora, porém, com um artigo que se não pode apagar: o Amor. Jorge Fernandes da Silveira Rio de Janeiro, 6 de setembro de 2009
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