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A poesia de Roberto Bozzetti é essencialmente o produto de um cético, e portanto, como todo cético, imbuído do dever sagrado do riso: de si, dos homens, do amor, da cidade. Não se deve confundir este ceticismo com amargura ou com desistência, antes ele está enraizado no trabalho de sísifo de reconstrução da fé na vida e nos homens de que ri. Assim, junto ao riso, temos também o trabalho sensível de palavras que buscam e constróem o encanto e a beleza, e se o riso às vezes leve, às vezes melancólico, é o ponto de partida, esta beleza possível da vida e da cidade é o ponto de chegada.

pequena nota biográfica do autor

Roberto Bozzetti é carioca de março de 1956, professor universitário, mora em Niterói desde 1979. Repele a idéia de que qualquer das informações acima tenha alguma coisa a ver com a misantropia que ciosamente cultiva, achando mais razoável atribuí-la ao parentesco com orangotangos, esses, desde Darwin pelo menos, semelhantes e irmãos – embora não leitores, como talvez Baudelaire apreciasse. Tem muito orgulho também, do parentesco com os bonobos, embora o máximo que tenha conseguido de próximo seja ter sido binubo. Já com os chimpanzés não percebe maior afinidade, muito menos com os gorilas, estes, coitados, pelas associações malevolamente feitas entre suas pessoas e os poderosos fardamentos usados no período de ditadura militar durante o qual cresceu. Não se interessa por fazer novos amigos – novos leitores sim, embora não saiba se vale a pena o esforço. Mas gosta de gente em livro, mais até do que em fotografia ou filme. Além de gostar esteticamente do que vale a pena – só não vale é perguntar o que, por exemplo – tem como ídolos no mundo real Zé Trindade, Tião Macalé e Zé Bonitinho. E lamenta muito não ter encontrado ainda nada de Ivon Cury disponível na internet em mp3.

Não acredita em nada, por princípio. Nem no que lê e muito menos no que escreve. Não lê o que escreve.

 

leia o prefácio de Marcelo Diniz

 

 

Gênero Poesia

Capa Dura

Formato 19,5 x 14,0

Páginas 108

Preço R$ 18,00

 

 

 

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  O tal livro, o tal poeta

 

Marcelo Diniz

Salvo engano ou arredondando o tempo passado, li pela primeira vez este livro há vinte anos. Roberto Bozzetti deu-me uma cópia datilografada em máquina elétrica e reproduzida pela xérox utilizada pelos alunos do curso de Letras da Universidade Federal Fluminense. Que este dado extrínseco aos poemas sirva não apenas como um detalhe nostálgico, mas, sobretudo, como a cifra da auto-ironia, por vezes séria, por vezes cômica, com que é vista a poesia por este livro.

Deixo, portanto, ao leitor o prazer de descobrir um exímio poeta inédito há duas décadas. Sempre me encantou a plasticidade com que a sintaxe, o enjambement, a rima, o anagrama, o ritmo e a espacialidade se combinam nestes poemas de Roberto Bozzetti. Trata-se de uma consciência dos problemas formais que, decerto, considera muito do que a poesia brasileira produziu durante os anos 90 e o início deste século. Lêem-se Bandeira, Drummond, Murilo, Cabral, Concretistas, Sebastião, Alvim. Ouvem-se Cartola, Cavaquinho, Lupicínio, Paulinho. Traduzem-se Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire. O repertório de Roberto Bozzetti, nos anos 80, é da riqueza do moderno, do erudito ao popular, da poesia à prosa. Que fique o parágrafo a respeito da pertinência de seus valores formais como mais um dado da ironia do ineditismo deste livro.

Por vezes dissimulada de simples esquecimento, a recusa marca a história destes poemas. Trata-se de certa enunciação narrativa que confere unidade temática ao livro. Os poemas ab(...)istmo, batismo, de títulos anagramáticos, representam o nascimento dessa enunciação que ao final do livro se apresenta como uma reflexão, em separata, a respeito dela mesma. E neste roteiro, assiste-se à negatividade com que a enunciação se considera do início–

a honra que me orna, inútil

numa compota de vermes.

[de ab(...)istmo]

 

OK, eu prometi de novo e

descumpri. gato, pulha

qual o nome que se dá

qual o nome desde então

adquiri?

[de batismo]

 

– ao último poema cuja ambigüidade do título – o risco (do livro) – faz com que o livro hesite entre a simples recusa, os perigos de fazê-lo, ou sua redução a um traço. Bozzetti não só reflete em seus poemas o tema da subjetividade e da negatividade que perpassa a poesia moderna, bem como a representa no próprio estatuto com que o livro se dá ao leitor: esboços nascidos da recusa.

Da contingência existencial à contingência da própria escrita, se é possível conceber essa narrativa da da recusa como unidade temática deste livro, a auto-ironia, a sugestão do inacabamento ou mesmo da impossibilidade fazem de cada poema um mesmo poema retomado, rasurado, recusado. Destaque-se o poema traços, em que a reflexão acerca do peixe é reduzida ao feixe desfeito de seu nome na última página. O recurso formal da espacialização pelas páginas de traços parece ecoar no lirismo urbano e amoroso do poema sétima anacronia:

fosse só atravessar e num

mesmo movimento

apagar estancar zerar

e viver como se a mentira não fosse a água

a água

Uma enunciação da escrita como derrisão auto-irônica, tal como se define o papel das letras no poema expulso:

letras riem das palavras

(nem poderia ser diferente)

 

Pode-se dizer que os poemas deste livro sobreviveram ao próprio ceticismo com que foram concebidos e conservados nestes vinte anos. Devote-se essa sobrevivência ao desejo arrevesado de fazê-lo e à dissimulação de assumi-lo expressos com certo humor que tempera as pretensões de sua (r)enunciação. Lê-se este livro rindo-se de si, de seu autor e de toda literatura gauche a que ele faz menção.

Este riso talvez seja o índice de maior inteligência desta poesia de Roberto Bozzetti, um livro-riso, cujo prazer consistisse em se pensar nas hesitações da iminência e de sua tentadora alternativa:

há quases

que vêm para bem.

 

É com este humor que esta edição incorpora suas duas décadas de atraso. Vale dizer que A tal chama o tal fogo só chegam às mãos do leitor depois de muita insistência. Para que aceitasse a proposta de publicá-lo, Roberto fez-se vítima de assédios, ora explícitos ora sutis e ardilosos, por parte amigos que o queriam publicado. Que o leitor também leve em conta, nesta publicação, a empresa sensível e generosa de Ricardo Pinto de Souza com sua Oficina Raquel, afinal, de um livro quase definitivamente inédito, apresenta-nos esta bela edição.