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Gênero Poesia Capa Dura Formato 19,5 x 14,0 Páginas 108 Preço R$ 18,00
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| O tal livro, o tal poeta
Marcelo Diniz
Salvo engano ou arredondando o tempo passado, li pela primeira vez este livro há vinte anos. Roberto Bozzetti deu-me uma cópia datilografada em máquina elétrica e reproduzida pela xérox utilizada pelos alunos do curso de Letras da Universidade Federal Fluminense. Que este dado extrínseco aos poemas sirva não apenas como um detalhe nostálgico, mas, sobretudo, como a cifra da auto-ironia, por vezes séria, por vezes cômica, com que é vista a poesia por este livro. Deixo, portanto, ao leitor o prazer de descobrir um exímio poeta inédito há duas décadas. Sempre me encantou a plasticidade com que a sintaxe, o enjambement, a rima, o anagrama, o ritmo e a espacialidade se combinam nestes poemas de Roberto Bozzetti. Trata-se de uma consciência dos problemas formais que, decerto, considera muito do que a poesia brasileira produziu durante os anos 90 e o início deste século. Lêem-se Bandeira, Drummond, Murilo, Cabral, Concretistas, Sebastião, Alvim. Ouvem-se Cartola, Cavaquinho, Lupicínio, Paulinho. Traduzem-se Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire. O repertório de Roberto Bozzetti, nos anos 80, é da riqueza do moderno, do erudito ao popular, da poesia à prosa. Que fique o parágrafo a respeito da pertinência de seus valores formais como mais um dado da ironia do ineditismo deste livro. Por vezes dissimulada de simples esquecimento, a recusa marca a história destes poemas. Trata-se de certa enunciação narrativa que confere unidade temática ao livro. Os poemas ab(...)istmo, batismo, de títulos anagramáticos, representam o nascimento dessa enunciação que ao final do livro se apresenta como uma reflexão, em separata, a respeito dela mesma. E neste roteiro, assiste-se à negatividade com que a enunciação se considera do início– a honra que me orna, inútil numa compota de vermes. [de ab(...)istmo]
OK, eu prometi de novo e descumpri. gato, pulha qual o nome que se dá qual o nome desde então adquiri? [de batismo]
– ao último poema cuja ambigüidade do título – o risco (do livro) – faz com que o livro hesite entre a simples recusa, os perigos de fazê-lo, ou sua redução a um traço. Bozzetti não só reflete em seus poemas o tema da subjetividade e da negatividade que perpassa a poesia moderna, bem como a representa no próprio estatuto com que o livro se dá ao leitor: esboços nascidos da recusa. Da contingência existencial à contingência da própria escrita, se é possível conceber essa narrativa da da recusa como unidade temática deste livro, a auto-ironia, a sugestão do inacabamento ou mesmo da impossibilidade fazem de cada poema um mesmo poema retomado, rasurado, recusado. Destaque-se o poema traços, em que a reflexão acerca do peixe é reduzida ao feixe desfeito de seu nome na última página. O recurso formal da espacialização pelas páginas de traços parece ecoar no lirismo urbano e amoroso do poema sétima anacronia: fosse só atravessar e num mesmo movimento apagar estancar zerar e viver como se a mentira não fosse a água a água Uma enunciação da escrita como derrisão auto-irônica, tal como se define o papel das letras no poema expulso: letras riem das palavras (nem poderia ser diferente)
Pode-se dizer que os poemas deste livro sobreviveram ao próprio ceticismo com que foram concebidos e conservados nestes vinte anos. Devote-se essa sobrevivência ao desejo arrevesado de fazê-lo e à dissimulação de assumi-lo expressos com certo humor que tempera as pretensões de sua (r)enunciação. Lê-se este livro rindo-se de si, de seu autor e de toda literatura gauche a que ele faz menção. Este riso talvez seja o índice de maior inteligência desta poesia de Roberto Bozzetti, um livro-riso, cujo prazer consistisse em se pensar nas hesitações da iminência e de sua tentadora alternativa: há quases que vêm para bem.
É com este humor que esta edição incorpora suas duas décadas de atraso. Vale dizer que A tal chama o tal fogo só chegam às mãos do leitor depois de muita insistência. Para que aceitasse a proposta de publicá-lo, Roberto fez-se vítima de assédios, ora explícitos ora sutis e ardilosos, por parte amigos que o queriam publicado. Que o leitor também leve em conta, nesta publicação, a empresa sensível e generosa de Ricardo Pinto de Souza com sua Oficina Raquel, afinal, de um livro quase definitivamente inédito, apresenta-nos esta bela edição. |
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