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Livro de estréia de Ricardo Pinto de Souza, Culturas é ao mesmo tempo homenagem e documento de resistência da cultura. Em suas páginas encontraremos algumas obsessões do autor: a literatura, as fantasmagorias, a/o laranja, e outras tentativas mínimas de lidar com o tempo contado antes do fim do mundo.

pequena nota biográfica do autor

Carioca, nascido em 1978, professor, escritor e, pasmem, editor-artesão da Oficina Raquel (o que põe em cheque qualquer crítica positiva a este livro; por outro lado...). Gosta muito de livros. Um dia se encontrou com William Blake. Aceitou mudar sua orientação por causa disso, embora ainda se sinta incomodado com um certo edema apocalíptico que surge de vez em quando de suas relações. Atualmente, prepara sua tese de doutorado e continua criando calos e gastos com a editora. Não sabe qual das duas vem alimentando sua gastrite. Espera que nenhuma das duas chegue a asassiná-lo, mas ambas são muito exigentes. De resto, declina tranqüilamente de ser um babaca, ainda que seu sucesso seja questionável.

 

leia o prefácio de Marcelo Diniz

 

 

Gênero Poesia

Capa Dura

Formato 19,5 x 14,0

Páginas 170

Preço R$ 15,00

 

 

 

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Como um gozo raro do chão

Marcelo Diniz

 

Este é o primeiro livro de poemas de Ricardo Pinto de Souza. A estréia de um autor parece sempre colocar em evidência determinados aspectos que podem nos descrever uma pequena fenomenologia da leitura: nossa expectativa se divide entre reconhecer de que leituras estes poemas foram feitos e que espécie de encanto ou espanto se renova, resiste ou se alimenta dessas leituras. Como ainda não é íntimo das chaves de leitura de uma obra tão recente, o leitor é flagrado também em situação de ineditismo: recorre às suas próprias chaves, ou seja, atravessa a intertextualidade do autor, o já-dito ou já-lido, não sem a esperança de alcançar o a-se-dizer ou o a-se-ler que justifique essa estréia. O leitor que experimente essa dupla face da leitura, de certo modo, reconhece-se sob a condição que a própria poesia de Ricardo nos descreve:

 

e os sentidos escorrem para o fundo do abismo para emergirem lavados, diminuídos.

 

Este movimento de renovação de que se investem os sentidos e, com eles, a leitura, oferece-nos uma chave instigante para o título intrigante deste livro. A cultura é concebida como o espaço dessa intertextualidade múltipla, uma vertigem de outras vozes. A enunciação plural é conduzida por uma voz narrativa e lírica a um só tempo, cuja maior evidência seja representada pela série Abertura, bem como pelo o poema que dá título ao livro: Culturas. A concepção polifônica da cultura, tão enfatizada pelas primeiras páginas desse livro se apresenta como uma espécie de condição que é palco do drama, ou da comédia, por que atravessam esses poemas. A todo momento, a poesia de Ricardo Pinto de Souza parece investida da consciência do quanto sua consistência é fruto de um afazer acerca do já-feito como uma espécie de resgate:

 

resgatar ao menos o mínimo

território humano da morte

 

É desse espaço de culturas que a enunciação deste primeiro livro oferece-nos tanto a perspectiva da memória pessoal quanto a do leitor. Tanto referindo-se a personagens quanto a autores, a poesia de Ricardo recorre com freqüência à imagem do fantasma muito provavelmente a fim de representar essa dúbia consistência com que a cultura e a literatura reveste a vida de tudo o que toca, como na bela e enigmática passagem do poema Abertura 1:

 

Velhos fantasmas tentando a dignidade

flutuando sobre o cheiro de mijo

 

São como fantasmas, entre vivos e mortos, que se igualam as referências sejam as de diálogo com a tradição literária, sejam as pessoais, configurando-nos um território próprio das culturas poéticas de Ricardo:

 

aqui é o terrítório de onde vêm todos os diabos, mas aqui é o único território em que a transfiguração e a astúcia são possíveis.

 

Drummond, Blake, Borges, Bandeira, Rilke, Rosa... Não gostaria de, com esse prefácio, esgotar o prazer narcísico da erudição do leitor de Ricardo Pinto de Sousa. Nem poderia. Mas vale dizer que Ricardo sabe cultivar enigmas. A poesia de Ricardo é repleta não só das cifras de sua filiação, mas, o que julgo mais vigoroso, de uma capacidade de cultivar enigmas. Citações e referências aparecem não apenas como um protocolo de poesia ilustrada, mas como tradução e recifração de um gozo com os inexplicáveis que a literatura possa semear na mente de um leitor iniciado. Um exemplo que funciona quase como uma charada sintática que parece articular-se em todas as partes do livro é o sentido que semeiam os signos que se referem ao ou à laranja, cor ou fruta.

 

Creio ser essa uma das principais qualidades desse primeiro livro de Ricardo Pinto de Souza. Essa capacidade de extrair força afetiva das tradições é o que nos convida essa poesia que só nos declara que não estamos diante de um autor ingênuo, bem como confirmamos que estamos diante de um leitor voraz e um poeta meticuloso.

 

É com essa consistência fantasmática que não só a literatura bem como a vida são concebidas pela poesia de Ricardo. Ou ainda, vida e literatura parecem se encontrar na poesia de Ricardo como um processo mútuo de desrealização e transformação. Vale mencionar o aspecto da militância literária do poeta e editor Ricardo Pinto de Souza. O posfácio Afinal nos dá a cifra dessa militância literária como política da cultura e pela cultura, uma política pelo gozo da arte e de suas pequenas mortes contra a apatia dos cadáveres adiados.

 

Que venham outros livros.