Como um gozo raro do chão
Marcelo Diniz
Este é o primeiro livro de poemas de Ricardo Pinto de Souza. A estréia de um autor parece sempre colocar em evidência determinados aspectos que podem nos descrever uma pequena fenomenologia da leitura: nossa expectativa se divide entre reconhecer de que leituras estes poemas foram feitos e que espécie de encanto ou espanto se renova, resiste ou se alimenta dessas leituras. Como ainda não é íntimo das chaves de leitura de uma obra tão recente, o leitor é flagrado também em situação de ineditismo: recorre às suas próprias chaves, ou seja, atravessa a intertextualidade do autor, o já-dito ou já-lido, não sem a esperança de alcançar o a-se-dizer ou o a-se-ler que justifique essa estréia. O leitor que experimente essa dupla face da leitura, de certo modo, reconhece-se sob a condição que a própria poesia de Ricardo nos descreve:
e os sentidos escorrem para o fundo do abismo para emergirem lavados, diminuídos.
Este movimento de renovação de que se investem os sentidos e, com eles, a leitura, oferece-nos uma chave instigante para o título intrigante deste livro. A cultura é concebida como o espaço dessa intertextualidade múltipla, uma vertigem de outras vozes. A enunciação plural é conduzida por uma voz narrativa e lírica a um só tempo, cuja maior evidência seja representada pela série Abertura, bem como pelo o poema que dá título ao livro: Culturas. A concepção polifônica da cultura, tão enfatizada pelas primeiras páginas desse livro se apresenta como uma espécie de condição que é palco do drama, ou da comédia, por que atravessam esses poemas. A todo momento, a poesia de Ricardo Pinto de Souza parece investida da consciência do quanto sua consistência é fruto de um afazer acerca do já-feito como uma espécie de resgate:
resgatar ao menos o mínimo
território humano da morte
É desse espaço de culturas que a enunciação deste primeiro livro oferece-nos tanto a perspectiva da memória pessoal quanto a do leitor. Tanto referindo-se a personagens quanto a autores, a poesia de Ricardo recorre com freqüência à imagem do fantasma muito provavelmente a fim de representar essa dúbia consistência com que a cultura e a literatura reveste a vida de tudo o que toca, como na bela e enigmática passagem do poema Abertura 1:
Velhos fantasmas tentando a dignidade
flutuando sobre o cheiro de mijo
São como fantasmas, entre vivos e mortos, que se igualam as referências sejam as de diálogo com a tradição literária, sejam as pessoais, configurando-nos um território próprio das culturas poéticas de Ricardo:
aqui é o terrítório de onde vêm todos os diabos, mas aqui é o único território em que a transfiguração e a astúcia são possíveis.
Drummond, Blake, Borges, Bandeira, Rilke, Rosa... Não gostaria de, com esse prefácio, esgotar o prazer narcísico da erudição do leitor de Ricardo Pinto de Sousa. Nem poderia. Mas vale dizer que Ricardo sabe cultivar enigmas. A poesia de Ricardo é repleta não só das cifras de sua filiação, mas, o que julgo mais vigoroso, de uma capacidade de cultivar enigmas. Citações e referências aparecem não apenas como um protocolo de poesia ilustrada, mas como tradução e recifração de um gozo com os inexplicáveis que a literatura possa semear na mente de um leitor iniciado. Um exemplo que funciona quase como uma charada sintática que parece articular-se em todas as partes do livro é o sentido que semeiam os signos que se referem ao ou à laranja, cor ou fruta.
Creio ser essa uma das principais qualidades desse primeiro livro de Ricardo Pinto de Souza. Essa capacidade de extrair força afetiva das tradições é o que nos convida essa poesia que só nos declara que não estamos diante de um autor ingênuo, bem como confirmamos que estamos diante de um leitor voraz e um poeta meticuloso.
É com essa consistência fantasmática que não só a literatura bem como a vida são concebidas pela poesia de Ricardo. Ou ainda, vida e literatura parecem se encontrar na poesia de Ricardo como um processo mútuo de desrealização e transformação. Vale mencionar o aspecto da militância literária do poeta e editor Ricardo Pinto de Souza. O posfácio Afinal nos dá a cifra dessa militância literária como política da cultura e pela cultura, uma política pelo gozo da arte e de suas pequenas mortes contra a apatia dos cadáveres adiados.
Que venham outros livros.
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