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"Renato já disse, em outro lugar, que pensa seu projeto poético como “uma imagem em relevo sobre uma luz quase crua”. O que de fato diz respeito ao olhar em travelling, ao tanto, se não precisamente de cinema, mas de deslocamento nesta poesia. Que traduz algo no qual sabemos nos reconhecer intimamente, coisas ditas - com o perdão da aparente tautologia - da única-forma-em-que-poderiam-ser-ditas, feito o foco, primoroso, da casa encolhida / com a cabeça entre os / joelhos, sob o chuveiro. Versos-móbiles de um projeto consistente, voz que, cruzando mais que fios, mais que paisagem, funda uma beleza estranha e turva, que é da vida, do mesmo abraço de vertigem e afeição que nos une a um amigo. Ou um livro. " (Diego Vinhas)

 

pequena nota biográfica do autor

Renato Mazzini nasceu em Março de 1982, em Santa Fé do Sul, interior de SP, onde ainda vive. É bacharel em Direito e trabalha como professor de inglês. Publicou poemas em alguns lugares da web e em veículos impressos. Edita o site As Escolhas Afectivas.

renatomazz@yahoo.com.br

 

 

leia o posfácio de Diego Vinhas

 

leia a resenha de Annita Costa Malufe publicada na revista CULT de fevereiro de 2010.

 

Gênero Poesia

Capa Dura

Formato 18,5 x 13,5

Páginas 60

Preço R$ 18,00

 

 

 

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Métodos de deslocamento e paisagem

 

Diego Vinhas


Do poeta Manuel António Pina, li certa vez uma sinceridade muito bacana sobre livros, e os fetiches, vestígios, veios de afeto com que nos contaminam o objeto-livro: os livros não servem apenas para serem lidos, ou apenas para serem lidos do modo mais usual da leitura. Servem também, por exemplo, para serem tidos. Tenho muitos livros que nunca li, e que provavelmente nunca lerei. Como li outros que não tenho. Ter um livro na estante, ter a possibilidade de o ler, é uma forma secreta de leitura.

Penso nesta passagem porque gosto de crer que todos que possuem lá a sua biblioteca, ou o que faça as vezes de (uma pilha amontoada de lombadas heterogêneas, vai que entremeada também de discos e papéis sem importância; ou aqueles que fixam uma coleção de livros alheia, e guardam em pensamento o relevo e o mapa de tantos espécimes dispostos preguiçosos), enfim, quem gosta (não é a melhor palavra, mas me pareceu eficiente) de livros deve, eu acho, em algum momento sentir, mesmo que sem se deter, a impressão de que eles trazem consigo a possibilidade que escapa ao mero ato de decodificar, e, mais que uma “forma secreta de leitura”, arrisco-me a dizer que estaria aí um, digamos assim, valor de paisagem.

Paisagem, aqui, como dados de contemplação, que servem a embalos e a embates. No caso de quando predomina um elemento de serenidade, podíamos citar a cabana descrita por Bachelard em sua Poética do Espaço, ou, mais singelo, mais efetivo talvez, uns versos de Duda Machado: Amo, quando à noite, / na estrada, me domina / a sugestão vinda / de uma ou outra casa, vista / de longe, e depois recordada. // A calma conferida pela distância, / a clareza do recorte que se destaca / e é quase um movimento de subida; / a gratidão por este momento / a deslocar-se em eco, // e a envolver tudo, / brisa / ainda há pouco formada, / a confluência / entre passagem e morada.

Já quando a face de embate é mais presente, penso em uma paisagem que não se fixa, a leitura do difícil equilíbrio de um instante qualquer, e todas as coordenadas e variáveis que silenciosamente atuam para formar uma coleção de margens borradas, desmontáveis, movediças, com as quais se peleja e ao mesmo tempo se confunde as margens do próprio observador, sendo esta esgrima, por vezes, a legenda de um outro tumulto, mais íntimo, o de se-pôr no mundo, o sujeito, despedaçado ou não, como se fizer possível.

Tudo isso para dizer de um livro, mais um livro. No caso, a estréia de Renato Mazzini, sob o instigante título Paisagem com Dentes, um conjunto que, agregando este duplo viés de que falamos (de placidez e colisão), se apresenta com uma força invulgar e muita deixa para conversas, muitas. Primeiro, porque o próprio objeto já compõe uma artesania, que tem em sua composição um tanto de rusticidade e também de calma, empenho, a tiragem tímida mas elegante, repleta de cuidado.

Mas o embate vai muito além. Mazzini é um cara de Santa Fé do Sul, interior de SP, cidade que eu não conheço, mas que, nos poemas, parece um lugar-qualquer, poderia ser aqui, ou outro onde, em que haja (e onde não há?) casas, sombras, rasura, tarde de chuva, trânsito, cortinas, café, janela, silêncio, asfalto recapeado, fotografias, uma estrada de voz baixa. A narrativa dos textos, quase sempre densa, mostra uma costura muito singular, levando quem lê a um caminho às vezes torto, sem facilidade, mas que se deixa captar enviesado, feito aquela paisagem que lembramos não-sei-de-qual-viagem, ou os fragmentos de um sonho que juntamos de manhã, e que, à sua maneira, intuímos que faz todo o sentido.

O livro se divide em duas partes. A primeira, (Sobre a Superfície), mescla um adendo de ternura, ainda que melancólica (“as mãos já sabem calar”), a uma espécie de sentimento de não-pertencimento, no qual se fala de corpos alheios, cidades dentro da cidade, para se enfeixar, ao fim, na própria solidão de quem assiste (como no belo texto Café Deserto). Há, pelas peças, um clima de dissonância, tentativas de se fincar em um lugar que não se deixa, que se esfumaça. Daí um/ tiro dado dentro de um/ buraco negro, ou o trilho de imagem que devolve / tudo àquele momento entre / dois intervalos do início. Mas é justamente aí que a respiração dos poemas surpreende, pois, embora conserve um apuro de construção, também apresenta um dado de vida, vida mesmo, que impede o engessamento do texto e distingue Renato, penso, de muitos de seus pares, ao escapar de armadilhas como a busca de uma complexidade semântica que acabe esterilizando o poema, ou, ao contrário, a primazia de um subjetivismo que peque pela falta de rigor.

Na segunda parte, (Flutuações), o tom não difere radicalmente, mas observo maior a fusão entre sujeito e paisagem. São peças desprovidas de título, compondo uma seqüência não linear, onde se faz presente de modo mais visível a profusão imagética da escrita de Mazzini (“desfazendo a cisma de Capricórnio / espremido entre um centauro e uma / tigela de água”), sem recusar aquele mesmo tom de intimidade e falência: este mundo nunca se compôs de tecidos macios. O maxilar da tarde vai ficar travado para sempre.

Renato já disse, em outro lugar, que pensa seu projeto poético como “uma imagem em relevo sobre uma luz quase crua”. O que de fato diz respeito ao olhar em travelling, ao tanto, se não precisamente de cinema, mas de deslocamento nesta poesia. Que traduz algo no qual sabemos nos reconhecer intimamente, coisas ditas - com o perdão da aparente tautologia - da única-forma-em-que-poderiam-ser-ditas, feito o foco, primoroso, da casa encolhida / com a cabeça entre os / joelhos, sob o chuveiro. Versos-móbiles de um projeto consistente, voz que, cruzando mais que fios, mais que paisagem, funda uma beleza estranha e turva, que é da vida, do mesmo abraço de vertigem e afeição que nos une a um amigo. Ou um livro.


DIEGO VINHAS, Fortaleza, março, 2009.

 
     
 

Resenha

Annita Costa Malufe


Donde vem a sensação de dificuldade de leitores diante da poesia de hoje? Talvez da intensificação do olhar ligeiro, cinematográfico, que não se fixa nas coisas nem se fixa no papel? De uma tendência forte à indeterminação, à percepção fragmentária? Este primeiro livro de Renato mazzini traz traços de uma poética do turbilhão, do olhar que cata cacos do mundo, dando-se à leitura de modo menos "mastigado". Mas o rigor técnico e a opção pelo risco da dificuldade não afastam o leitor que se disponha a viajar em suas bem montadas paisagens em movimento, que parecem surgir e logo desaparecer diante dos olhos: "um pássaro de cores confusas se desintegra em radiosas faíscas

CULT n0143, fevereiro de 2010.