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Gênero Poesia Capa Dura Formato 21,0 x 21,0 Páginas 198 Preço R$ 30,00
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Alberto Pucheu Já se tornou lugar-comum dizer que a internet ampliou imensamente as possibilidades de publicização de escritas que – muitas – nem apareceriam se não fosse o seu advento. Hoje, com um mínimo domínio de algum programa de computador, qualquer pessoa pode criar, por exemplo, um site pessoal ou um blog para divulgar o que ela própria deseja, elevando a exposição do que contemporaneamente se faz ao inumerável. Com isso, cada vez mais, outro papel ganha importância crescente: o do editor. Como, no período de uma vida, nos é impossível ler tudo que virtualmente pode estar acessível para nós, ao fazer uma revista, ele é aquele que tenta mostrar a relevância do seu recorte da imensa produção, édita ou inédita, a que, de qualquer modo, tem acesso. A figura do editor serve, então, primeiramente, como um filtro valorativo. Por ela, se dá uma amostra daquilo que considera destacável. Nesse sentido, em algum grau, todo editor de literatura se comporta como um crítico literário, na medida em que aquilo que ele privilegia funciona como uma intervenção criativa nas linhas de força de nosso meio artístico, acadêmico e cultural. Se o sumário de um livro crítico já diz muito do lugar ocupado pelo crítico que o escreveu, é igualmente verdadeiro que uma lista dos autores publicados por uma revista já diz muito do modo pleiteado por seus editores para se inserirem em seu tempo, que lhe dará ou não credibilidade. Não é de se estranhar, portanto, que, cada vez mais cedo, criando revistas eletrônicas, estudantes de literatura venham se tornando editores responsáveis e de grande qualidade: é o caso de Raquel Menezes e Hugo Langone, que, há dois anos, como alunos de graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, criaram a revista Pequena Morte. Com edições bimestrais regulares, nas quais apresenta poemas, ensaios, entrevistas, colunas e trabalhos plásticos, ela está em seu décimo terceiro número. Não bastasse o empenho e a periodicidade cumprida à risca, é de se louvar, sobretudo, a qualidade do material apresentado. Agora, os dois anos de existência, seus doze números e sua alta qualidade são festejados, com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Letras (Ciência da Literatura): a Pequena Morte ganha uma antologia de poemas publicados até a presente edição, a de número treze. É significativo que, há alguns anos, a Ciência da Literatura venha apoiando projetos como este, vindos de alunos recém-formados e recém-ingressados na pós-graduação. Isso se dá pelo fato de o respectivo Programa saber que seu trabalho se estende ao domínio dos novos pesquisadores, integrando-se a eles e ajudando a formar e a estimular da melhor maneira aqueles que se empenham no pensamento, nas artes, na vida. O vínculo entre a respectiva revista literária e a universidade chama atenção não apenas para a – esperada – ligação entre poesia e corpo, mas também para a – supostamente inesperada – indissociabilidade entre ensaio e corpo, entre estudo e corpo, entre pesquisa e corpo, entre academia e corpo. O que está em questão é a realização do pensamento criativo desde o desejo, no alcance de um êxtase. Corporal e extático, o desejo é o que deve mover, igualmente, a poesia, a crítica, a teoria e o pensamento de modo geral, mesmo quando dentro da chamada Academia. Muito belamente, em quem somos, através de seus editores a citarem Eduardo Galeano, a revista coloca uma das determinações implícitas em seu título: Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, e ao nos matar nos nasce. Quebra e junção, perdição e encontro, fim e princípio, morte e nascimento... estas encruzilhadas dão os nomes da grandeza. Pequena Morte porque a vida é grande! E o pensamento também o é! Se Fernando Pessoa nos havia ensinado que o primeiro princípio da crítica é a simpatia, sendo desde aí que ela deve pensar a poesia em sua vitalidade maior, parece ter sido esta a força regente deste número comemorativo. Não pelos poetas escolhidos a participar dele (todos os poetas publicados pelas edições online comparecem aqui), mas, sim, porque, estabelecidos os poetas, eles mesmos escolheram os críticos que apresentam seus poemas. Contrariamente ao ditado popular que afirma que o amor é cego, a Pequena Morte, expert nesse assunto, pois lida com ele desde seu extremo e ápice, nos mostra que o amor é o que faz ver melhor. Quem ama vê melhor porque vê o amado potencializadamente. Quem ama vê melhor porque vê, no amado, o que ninguém mais vê. Ver o que ninguém mais vê, dando a ver o invisível, é a tarefa maior da crítica contemporânea: é desde aí que ela se realiza. É desde aí que ela compartilha o ponto de nascimento do poema. Temos, assim, catorze poetas e catorze textos de teóricos escolhidos pelos poetas. Entre poetas e críticos, além dos brasileiros, cabe assinalar a presença significativa dos autores portugueses; além dos brasileiros e portugueses, há também Mario Meléndez, poeta chileno, cujo texto crítico é escrito pelo equatoriano Xavier Oquendo. Se este número traz em si, entre outros, o importante poeta português Gastão Cruz, o poeta português da morada errante Rui Pires Cabral, o poeta membro da Academia Brasileira de Letras Antonio Carlos Secchin, o sempre admirável Paulo Henriques Britto, poetas significativos da geração que no Brasil começou a publicar nos anos 90, como Caio Meira, Eucanaã Ferraz e Sérgio Nazar; traz também poetas mais jovens como o português Manuel de Freitas, Luis Maffei, Leonardo Gandolfi, Sebastião Edson Macedo, Maurício Chamarelli e Maurício Matos. Essa ambiência de reconhecimento dos poetas vivos, mais velhos e, simultaneamente, a aposta no novo sempre me atrai, pelo acolhimento do passado recente e pelos riscos corajosos que é preciso correr quando se quer assinalar a força do que está por vir. Entre os textos teóricos, Celia Pedrosa, Eduardo Coelho, Igor Fagundes, Nonato Gurgel, Fernando Miranda, Flavia Vieira da Silva, Luis Maffei, Érico Braga, Maria Lúcia Dal Farra e Luís Augusto de Oliveira, além dos portugueses Pedro Eiras e Ana Luísa Amaral e do já mencionado Xavier Oquendo, equatoriano, se fazem presentes. Entre todos os que comparecem na revista, também ressalto tanto a presença de muitos alunos e ex-alunos de nossa Faculdade, o que nos enche de alegria e orgulho, quanto a de professores. A comemoração aqui está feita seguindo um encontro fundamental ao nosso tempo: a do poético com o teórico, para que ambos exponham a vitalidade do pensamento em nossa atualidade. Ela também se dá no fato de a maioria dos poetas ter disponibilizado poemas inéditos em livros. Algumas das forças regentes no que se segue parecem ser a dramatização e ficcionalização do eu poético, aberto a múltiplos devires em personagens, o acatamento da cultura de massas, a recusa ao confessionalismo, a narratividade da poesia, o acolhimento de inúmeras manifestações artísticas, literárias ou não, a ironia, a auto-ironia, a perda da aura, o tom manifestadamente menor, o curto-circuito de falas, a velocidade, o elogio à vida em gradações de estado de ânimo, a alegria, a leveza, o tempo, o espaço, o anti-poético, o lugar-comum, o desenraizamento... enfim, tudo o que nos dá o que sentir, o que pensar, o que criar. Tudo o que faz a Pequena Morte dar o que falar. Parabéns a mais este empreendimento de Raquel Menezes e Hugo Langone, desejando, pelo que já foi, o melhor pelo que vem.
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