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leia o prefácio de Luis Maffei
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Gênero Poesia Capa Dura Formato 19,5 x 14,0 Páginas 130 Preço R$ 25,00
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Nova edição prevista para maio de 2010 . Qualquer dúvida mande um e-mail para comercial@oficinaraquel.com . |
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Luis Maffei
Começo de um começo possível e bastante profícuo, o livro de estréia de Manuel de Freitas, do qual retiro o título deste prefácio-aproximação. “Moi-même chevauchant mon propre génie” pertence a Todos contentes e eu também, lançado em 2000. Cito de uma vez a estrofe que mais me interessa, a quarta dum poema cuja primeira compõe-se de um verso apenas, “Mário Botas morreu”:
Vestido de estrelas, Mário sucumbiu num cortejo de malévolas flores. E o mundo desmoronou-se uma vez mais perante a ferida altivez do demiurgo. Há desvarios assim, fogos que ardem silenciosamente na breve treva da alma.
A seção do livro em que se encontra “Moi-même chevauchant mon propre génie” se intitula “Necrotério”, e começo a suspeitar de que uma das linhas de força da poética de Freitas terá que ver com a morte. Mas onde a peculiarização, aqui, de tal tema, antigo e perene em eventos de poesia? Pergunta nuclear, cuja resposta principio a buscar no próprio Freitas, não em sua obra lírica, mas num ensaio de nome “Only the lonely”: “Para a poesia, para cada poeta que se não queira mero versejador, a única realidade real é a morte. Pouco me importa, em suma, que palavras lhe sobreviverão (...)”. Muito claro, pois, muito pouco ambíguo o projeto poético de Manuel de Freitas, certo?
Jamais. Insisto no poema que empresta o nome a este escrito: “(...) o mundo/ desmoronou-se uma vez mais perante/ a ferida altivez do demiurgo. (...)”. Se “a única realidade real é a morte”, e se, depois da morte, não importam as “palavras” que “sobreviverão”, que demiurgia tem lugar justamente num poema, ato concretizador da poesia? Há a morte, é evidente, mas há algo mais, na morte e fora da morte, como “realidade real”: há a poesia, capaz de, diante da morte, olhar os “fogos que ardem silenciosamente/ na breve treva da alma”. Há, portanto, na linguagem poética de Freitas, algo que convoca a morte, “realidade real”, para subjugá-la – não deixando a morte de ser sempre a promotora do grande subjugo, é claro – a diversas outras realidades. Uma delas, como manifesta o poema citado, é a amizade. E é a amizade que comparece a diversos poemas de Freitas, como o último desta antologia, “Apeiron”, de Juros de demora, lançado em 2007: “(...) guardo a sua sombra,/ percebo a indeterminada força que nos conduz para a morte.// Ao intervalo, breve, chamamos amizade.”
Já está: a morte, como recorrência e quase obsessão na poética de Freitas, produzirá não apenas um unívoco efeito, mas sentidos diversíssimos. Derivo um bocado a fim de tentar situar este poeta, e aproveito uma informação dada por ele mesmo em sua minibiografia que vai nesta edição: “foi responsável, em 2002, pela organização da antologia Poetas sem Qualidades”. Além da organização, Freitas assina o prefácio, intitulado “O tempo dos puetas” [sic], no qual figura uma afirmação contributiva para o entendimento do conceito de poesia do próprio Manuel de Freitas: “A um tempo sem qualidades, como aquele em que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades”. Não quero aqui refletir acerca da existência ou não de algo como uma geração de poetas que mostra seu rosto na antologia recém-referida. Tampouco quero ir fundo na tentativa de detecção, reparando encontros e divergências, de uma dicção necessariamente nova na poesia portuguesa de fins do século XX, início do XXI. Basta-me citar Rosa Maria Martelo, que, num texto cuja ambição é precisamente encontrar “algumas linhas de leitura para a poesia portuguesa contemporânea”, afirma lá pelas tantas “a diversidade da poesia mais recente”.
O que quero é perceber o quanto a fulcral idéia de morte alia-se, na lírica de Manuel de Freitas, à exigência de uma poesia “sem qualidades”, já que feita num “tempo sem qualidades”. Considero bastante revelador outro fragmento do prefácio à antologia de 2002: “Estes poetas não são (...) limadores das arestas que a vida deveras tem”. É atacada certa lírica portuguesa que investe num adensamento da linguagem poética e acaba por torná-la, para além de distante do leitor, distante das “arestas” da “vida”: “Voltar ao real”, como solicitou, ainda nos anos 70 do século XX, um dos poucos poetas elogiados por Freitas em “O tempo dos puetas”, Joaquim Manuel Magalhães?
Mas quando a poesia se afastou do real? Quando a poesia não se aventurou pelas veredas da transfiguração do real? Faz todo o sentido a afirmação de Fernando Pinto do Amaral acerca da nova poesia portuguesa: “a linguagem da experiência não poderá, afinal, prescindir de uma intensa experiência da linguagem, para se transformar em poesia”. Faz todo o sentido afirmar, sim, que a poesia de Manuel de Freitas jamais prescinde de “uma intensa experiência da linguagem”. Digo outra vez: a “realidade real” que é a morte nunca se instala na poesia de Freitas sem que outras “arestas” sejam rigorosamente convocadas (inventadas?) por esta mesma poesia.
Grafei “inventadas”? Pois bem:
E a mentira (a literatura) é ainda a improvável derrota de que não nos salvaremos nunca. Tão igual à vida, portanto.
Sem qualidades esta poesia, atenta à “única realidade real” do humano, mas atenta também à sua própria natureza, ora, de poesia. “Tão” diversa da “vida”, portanto. “Tão igual à vida, portanto”. Porque escrever que “a literatura” é da ordem da “mentira” não se faz sem que algum Pessoa esteja em mente. E Freitas, sim, é rigorosamente atento à tradição, a sua, sem que deixe de ser atento a seu próprio à-vontade para manejar como queira a tradição, a sua. O exemplo mais evidente deste à-vontade é a relação do poeta em pauta com Camões. Dos encontros falo mais adiante. Do amor, falo já: se não é Camões o fundador da temática amorosa em poesia portuguesa, certamente inova, e grandemente, numa sexualização da experiência do amor que em nada contradiz uma sentimental pureza. E Freitas? A seu modo, ele também faz poemas de amor. Ou, talvez seja melhor, com amor. E, claro, com erotismo. E neste ponto, Freitas também inova, afastando-se imensamente de Camões. Cito um assustador poema de Todos contentes e eu também:
Ferozmente sobre ti quase lambendo quando um estremecimento dorsal obriga aos sítios húmidos, demandados em vão. (...) Os corpos regressam de não ter partido, desfaz-se o lume num insuportável deserto de sentir não sentir.
Antes de mais: não é apenas de Camões que se afasta o autor de versos assim, mas de toda uma tradição que vê no erotismo uma das portas humanas para a plenitude, ou para a realização. Em linhas gerais, a sexualidade encontra dois territórios, em poesia, para sua maculação: o humor, linhagem fundada pelas cantigas de escárnio e maldizer, e a moral. No poema de Freitas, no entanto, nada há de engraçado ou moralista; há a percepção de que a sexualidade participa, como todos os outros eventos humanos, da mortalidade, e o corpo é como que uma bandeira da precária condição do indivíduo. E eu, que acabo de dizer que Freitas se afasta de Camões ao escrever os versos há pouco citados, penso agora no “bicho da terra tão pequeno” do vate, capaz de nada diante dum Céu indignado, mesmo porque há “Na terra tanta guerra, tanto engano/ Tanta necessidade avorrecida”: mesmo, e talvez sobretudo, no universo das relações humanas, o mal é o regente, o desconcerto é a condição da vida. Por essas e outras, encerra-se o poema de Todos contentes e eu também com uma estrofe-bomba: “O sexo é o mal/ mas não só”: não é apenas o “sexo” o “mal”, havendo tantos males de tantos outros tipos. Mais: a não-solidão que o sexo exige é também “o mal”, pois o poeta necessita, como revela “Only the lonely”, de uma “plena” “solidão”, tão distinta da “vida” real – no que ela possui de gregarismo –, “portanto”.
Já que ando pelo à-vontade com que Freitas lida com a tradição, afasto-me de Camões – a ele volto mais tarde – para observar outros diálogos que o jovem poeta faz, e os exemplos não são poucos. Citarei apenas alguns, mas não sem antes ressaltar que Freitas freqüentemente faz uso de epígrafes, cujas procedências são várias: desde o Malcom Lowry que abre Todos contentes e eu também, livro de estréia, até o Pedro Ayres Magalhães da abertura de Juros de demora, livro lançado já neste 2007. Quero chamar especial atenção para a circularidade de [SIC], de 2002, fornecida pela articulação entre sua epígrafe, vinda de Sá-Carneiro (“Fingidas, afinal, todas as portas”), e a inscrição que encerra o livro, retirada a Sá de Miranda (“Que se podia esperar de cousas mudas?”). A homonímia entre os dois poetas, além da conexão que passa a haver entre os versos que deles são trazidos, dimensiona o quanto de fingimento e mudez será encontrado neste livro de título extraordinário: se (sic), numa citação, acusa que algo estranho ou inusual foi grafado realmente daquele modo, sic possui sonoridade mui semelhante ao vocábulo inglês para doente, sick: é assim mesmo, doente mesmo, que se mostra o livro, e, por extensão, o poeta que o fez. Posui, decerto, uma apaixonada, por patológica, feição esta doença.".
Alguns diálogos, enfim: ambiciona uma contemporaneidade da história da poesia o sujeito lírico que afirma, em “Cronofobia”, de [SIC]: “Sou contemporâneo de Villon/ e escrevo às vezes a Montaigne”; tem a literatura na memória, mesmo que relate uma aventura de desamor, aquele que se lembra de Vergílio Ferreira em “Baile de finalistas”, de Beau Séjour (2003): “Ela despediu-se, nem sequer/ para sempre ou até ao fim/ ou qualquer outro dos títulos/ do romancista português/ que mais lia. (...)”; é Céline, naturalmente, o interlocutor da desesperança que domina “Céline Blues”, de Os infernos artificiais, de 2001: “E é ainda para ninguém/ que estamos a falar de coisa nenhuma”; e é a Pessoa que o eu poético se dirige, não sem ironia, em Vai e vem (2005):
No entrementes, Dona Benilde acha muito mal que duas raparigas se beijem tão nitidamente à sombra do jardim – se fossem homens, acrescenta, estranharia menos. Mas afinal (ó Pessoa) uma delas é rapaz e o mundo volta a ser perfeito.
Mas não é apenas com gente da literatura que esta poética conversa. À música, e a músicos, Freitas vai buscar freqüente alimentação, e não é um blefe que ele afirme: “Os meus ‘poetas’ chamam-se Billie Holiday, Roberto Goyeneche, Tom Waits”. Penso imediatamente em Jukebox, de 2005, livro cujos poemas têm como tema único a música, ou melhor, músicos e/ou eventos musicais. É a música, nesta poesia, uma das poucas realidades com algum caráter sublime, e por isso se mostra capaz de estabelecer a mais rigorosa relação de contradição com o mundo e sua miséria. A Jukebox toca, entre outras músicas, “Jordi Savall, 2001”: “Poucos dias antes, muita gente/ morrera por razão nenhuma,/ num pleonasmo em directo/ de que ficou somente a data”. É ao 11 de setembro que se refere o poema, não apenas um “pleonasmo”, mas uma metonímia da barbárie humana. E a música será, talvez, a única possibilidade da ordem do salvífico: “A música pode e não pode refrear/ a barbárie. Nessa noite, porém,/ a Ária em Sol de Bach foi a melhor, talvez a única solução/ para o horror de estarmos vivos”.
No universo da música, é de fato Bach quem recebe de Freitas as mais reiteradas referências (e reverências), dentre as quais um livr(inh)o inteiro, Büchlein für Johann Sebastian Bach, de 2003. A primeira estrofe de “Herreweghe, 1985” é das mais primorosas celebrações melômanas de que tenho notícia, em poesia e fora dela:
Se me perguntassem o que é a perfeição, diria: acabar agora o mundo, extinto o lume ou quase lume deste coro final como nenhum outro: “Wir setzen uns mit Tränen nieder Und rufen dir im Grabe Zu…”. Bach, obviamente Bach.
“Bach, obviamente Bach”, e o demiurgo ferido que é Freitas não se furta a trazer o “lume/ deste coro final” para seu poema, ainda que não tente, de modo algum, da música fazer qualquer tradução, pois “Pecado, maior, é tentar traduzir a música”, diz “Coin, 1994”, poema do mesmo livro. Aproveito a música para voltar a Camões, tendo como felicíssima ponte outro poeta que Freitas nomeia: “Não te lembras sequer/ de ter lido Jorge de Sena/ – ou mal” (“Herreweghe, 1996”, Büchlein für Johann Sebastian Bach). Sena, freqüente convidador de Camões para poemas e estudos, é, assim como o autor de Jukebox, ardoroso amante da música. Já detectei alhures que Freitas assume, em “Camões burger”, uma dicção afim à do Sena de “Camões dirige-se a seus contemporâneos”. No poema de Game over, o poeta “dirige-se aos seus para acusar o ainda vigente e equivocado consumo que se faz do legado camoniano”. Cito, claro, “Camões burger”: “Para alguns, doutos e moralíssimos,/ o comércio com as musas não era compatível/ com fodas de foder bem dadas, em redondilhas/ um pouco maiores do que eles, os necrófagos de serviço”. Penso nos senianos versos “Podereis roubar-me tudo: as ideias, as palavras, as imagens”, e ambos os poetas lançam-se em defesa de Camões. Freitas, a propósito, dá seguimento àquilo que Maurício Matos detecta como um tipo de estirpe: “‘Camões burger’ é legítimo herdeiro de uma tradição poética e política, já antiga, que haverá de passar, necessariamente, por Jorge de Sena”.
É também em Game over que se encontra aquele que é, talvez, o mais extraordinário convite que Manuel de Freitas faz a Camões. O poema se intitula “Estudos camonianos”, e a parte do livro em que se insere, “O rumor das saias de Inês”:
Estavas linda, Inês, e Camões decerto não se importará se eu disser que tinhas posta no lugar a carne inteira do meu futuro desassossego.
Não mais a Inês de Castro cantada n’Os Lusíadas, mas como não ser esta a Inês de Castro cantada n’Os Lusíadas? Ué, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. E a vontade do poeta d’agora é expressa pela mera mudança de lugar duma vírgula: Inês não é morta, nem “linda”, mas estava na condição da alta beleza, estado tão provisório quanto a própria vida, mesmo porque estamos todos “entretidos a morrer/ por novas avenidas velhas/ que em breve nos não verão mais,/ apartados pela vidinha”. Como pensar na beleza, ou mesmo no amor, sem que se tenha como norte a precária condição do humano? Ademais, nos tempos de agora, “o horror de estarmos vivos” faz com que não seja necessária, para a consecução da barbárie, a existência de qualquer rei que derrame o sangue alheio para proteger sua boa genealogia, nem de algum príncipe vingativo ou cru. Se o tempo de agora é sem qualidades, assim o será o mundo desse tempo; além disso, de horror, é claro: “No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA./ Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas/ há neste mundozinho de horror?)”, lê-se em “Zulmira, ao amanhecer”, de Os infernos artificiais. Assinalo, antes de prosseguir, que a discussão acerca da existência ou não de qualidades na poesia de Manuel de Freitas parece-me, a todos os títulos, escusada. Claro está que quem forja esta expressão é o próprio poeta, e a ele, pronto, está associada esta espécie de projeto. Mas existem dois aspectos que não posso deixar de observar: o primeiro é que “qualidades” podem ser adjuntas a certa diacronia percebida por Freitas em boa parte da poesia portuguesa contemporânea. Que se entenda qualidades, portanto, a partir da ácida crítica feita em “o tempo dos puetas” a Nuno Júdice, nada mais que “um Antero fascinado pela biografia de Kleist ou um contemporâneo bizarro de Sá de Miranda”. Que se leia também com atenção a referência, no mesmo texto, ao apetite das massas notado por Benjamin, e o que se segue: “Foi ainda Benjamin um dos primeiros a constatar que a qualidade passou a ser, nas sociedades industrializadas, sinónimo de quantidade”.
Desse modo, sabe-me um disparate querer ver em Freitas, ou mesmo nos poetas reunidos na antologia de 2002, renúncia a qualquer rigor de linguagem. Achar na expressão “qualidades”, se associada à poesia, um sinônimo para importância, erudição ou quejandos é ignorar o que Benjamin já suspeitava no início do século passado. Qualidades tenha um sofá, ou um disco rígido de computador; a poesia, prefiro que tenha densidade, linguagem em estado de subversão e “fogos que ardem silenciosamente/ na breve treva da alma”.
É por essas e outras que não existe incoerência entre a íntima relação que Manuel de Freitas mantém com a tradição por si elegida e a idéia duma poesia sem qualidades. Mas esta poesia terá que se sentir à vontade, do mesmo modo, para sair da poesia. Não estranha, por conseguinte, que a epígrafe a “Introdução aos estupros literários”, segunda parte de Game over, seja “Sai-se para a literatura quando é da literatura que é preciso sair”, colhida a Mário Cesariny. António Guerreiro nota, na poética de Freitas, uma articulação entre certa narratividade observadora e um inegável lirismo, pois o poeta “escreve a partir de situações que definem um modo de habitar a cidade, e a sua escrita implica uma acuidade que não é só visual, implica todos os sentidos e uma espécie de reflexiva contemplação que faz emergir a declaração subjetiva”. O que me parece mais importante no comentário de Guerreiro é o sutil desmonte de uma oposição descabida: a que opõe uma poesia supostamente realista a outra, dedicada a abstrações e/ou a um discurso dotado de maior espessura. É fato: a poesia lida hoje, e sempre lidou, com o mundo, e, portanto, com aquilo a que se convencionou chamar de realidade. Logo, cito mais uma vez a feliz observação de Fernando Pinto do Amaral: “a linguagem da experiência não poderá, afinal, prescindir de uma intensa experiência da linguagem, para se transformar em poesia”. É justo o que faz Manuel de Freitas em diversos poemas; cito “Sumário”, de [SIC]:
Tão real que até faz pena. Tirou a dentadura para sorver as últimas pedras de gin no cibercafé do bairro alto. Depois descalçou-se e foi outra vez estrangeira e loura, como se houvesse morte para isto. Aquela que haverá, decerto, e nos encontra mudos ao final da tarde.
Da observação – de partida, plena de subjetividade – duma cena urbana, o sujeito delineia o percurso (a desembocar na morte, realidade tão real quanto poética) daquela que se mascara de “estrangeira e loura”. O sítio onde se passa “Sumário” é uma taberna, cenário freqüente, na lírica de Freitas, de situações de melancolia e corrupção. É das tabernas que virá para esta poética gente que não é da escrita nem da música, mas duma urbe que, estando fora da poesia, dela passará a fazer parte. Quem observa este aspecto é José Ángel Cilleruelo, literato que, dentre outros trabalhos, organizou a antologia espanhola de Manuel de Freitas: “os poemas de Freitas são atravessados por figuras e personagens urbanos (...). Alguns deles protagonizam vários poemas em diversos livros (....), personagens lisboetas (...) convertidos em matéria poética e, talvez um dia, mítica”. Cito um surpreendente encontro entre a música, a memória e uma das personagens de Freitas:
Devia ser o disco mais ouvido: a Quinta Sinfonia, numa gravação de Klemperer. As manhãs e as tardes auguravam um futuro melhor, prendados costumes que depressa perdi. Já então olhava para a taberna da Ana, enchendo a janela do meu quarto. Tinha medo da sombra, do silêncio, adivinhando em cada passo o monstro que me habitava. (...)
Na memória do sujeito, a música enche o ambiente por dentro e a “taberna da Ana” enche-o desde fora, através da “janela do” “quarto”. Neste “Pedaços de vinil com lama”, de Beau Séjour, o desconcertante encontro entre Beethoven e uma taberna não é a única confluência, pois o passado, por um trabalho da memória, encontra-se com o presente, e este acaba por ser enchido, não sem algum ruído – ser “vinil” um dos elementos lembrados é digno de nota –, de uma realidade marcada pela perda. Mas outro elemento irá comparecer ao poema, a fim de dar conta não apenas duma faceta sombria do amor, mas também, e uma vez mais, da presença ineludível da morte: “Um dia, de tanto o amar,/ peguei no disco e quebrei-o/ em pequenos pedaços de vinil”: como fosse um ser vivente, o disco é morto por quem o ama, e o passado, no encerramento do poema, faz-se presente no que diz respeito à prática do amor:
O que me comove, passado tanto tempo, é perceber que fiz a esse disco o mesmo que faço e volto a fazer aos corpos que julgo amar:
parti-los, muito devagar, para que doam sempre um pouco mais.
Portanto, se em liame estão as tabernas, a música, o amor, o passado e o presente, e se o indivíduo poetiza diversos temas num específico tempo (o seu) e num preciso lugar (sua subjetividade e também o mundo que a cerca e modula), é claro que ele será tão vítima como algoz. Não se pode contornar que o fator tabernas traz consigo o fator álcool, e exemplos disso na poesia de Freitas não são poucos. Elenco apenas alguns: “Apostámos depois uma garrafa/ de tequila, mas faltou a canção/ de Chavela Vargas que a garantisse”, de “Travessa da água-da-flor” (Blues for Mary Jane). Este exemplo parece-me notável porque revela a bebida vinda sem música, o que acusa a dorida falta do elemento que a poesia de Freitas vê como sublime. Além disso, pode ser deveras sensível, numa lírica que investe na articulação, a falta de um elemento num conjunto. Mais exemplos: outro que vem duma musical circunstância retiro-o a “Amália, 1982”, de Jukebox: “O Joãozinho pediu-lhe calma,/ deu-lhe de beber à ingapagável dor/ e sentou-se ao seu lado”. A bebida, certamente alcoólica, não é apenas um elemento embriagador neste poema, já que os sentidos sutilmente se multiplicam: dar de beber é um ato também nutritivo, e aqui a bebida funciona como alimento duma circunstância dolorosa: ocorre o contrário do consagrado “beber para esquecer” – muito à brasileira, trago para cá uma “frase de botequim” para acusar o quanto a poesia de Freitas está dentro da taberna, mas muito para além da taberna.
Exemplo final, pois é já flagrante que o álcool aparece nesta poética como componente de urbanas tabernas cheias de personagens e como um – dentre muitos – apontamento de tristeza e solidão; cito “The heart of saturday night”, de, claro, O coração de sábado à noite: “O acaso de uma boleia/ que te pusesse à mercê de um charro/ e das piores companhias./ Quase gostavas do abandono/ que cerzia solidão e solidão,/ entre esses que bebiam/ por cima de escuros degraus (...)”. As “companhias” são as “piores”, mas não porque haja algum moralismo assumido pela voz locutora do poema. Pelo contrário, a frase feita é desmontada. As “companhias” são as “piores” porque a “solidão”, mesmo se cerzida a outra, não se transforma, neste universo poético dominado por um tom elegíaco e fatal, em efetiva companhia; transforma-se, se muito, numa espécie de solidão acompanhada. Se no universo da solidão me acho, devo ver na cidade que Freitas canta o espaço da frustração, um espaço atomizado e incapaz de permitir ao sujeito a vivência mesma do encontro. Penso imediatamente na baudelairiana “passante”, inatingível em virtude de ser urbana, logo dispersa, a visão que se tem dela: “Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où te vais,/ O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!”. A cidade impossibilita o encontro, e faz com que a experiência amorosa se desloque para a espécie de devaneio que toma conta do sujeito lírico, única opção que lhe resta diante da ausência da potencial amada. A presença de ecos de Baudelaire em Freitas é notada por Cilleruelo, que afirma: “Em Freitas nota-se um traço de Charles Baudelaire (...). O passeador ocioso abre caminhos, o que significa dizer que ele cria um conhecimento, no labirinto da cidade (...)”. Sim, a poesia de Freitas cria um conhecimento, mas necessariamente da dimensão da perda, da impossibilidade. Se Baudelaire veio a esta reflexão, é preciso que se faça um indispensável discernimento, e quem o faz com bastante exatidão é Rosa Maria Martelo, comentando precisamente a poesia portuguesa da mais rigorosa contemporaneidade; Rosa Martelo reflete acerca da deselitização das artes no decorrer do século XX, ou da “progressiva dissipação desse aristocratismo que Baudelaire considerava inerente à experiência do ‘belo’”. Baudelaire, nas palavras de Benjamin, “amava a solidão, mas a queria na multidão”. O caso de Freitas, não obstante a “plena” “solidão” de que o poeta precisa, é ambíguo, pois não há, apesar da imprescindibilidade do estado solitário ao oficio de poetizar, amor à solidão, como fica evidente em “A self-pity em 1998”, de Game over: O menino, raios o partam, continua por aí à procura de quem o queira e lhe diga sossegadas mentiras de amor, dessas que não doem e hão-de por isso doer o dobro e envergonhar os ossos, só porque a solidão não é, aparentemente, a nossa mais certa vocação.
Na vivência urbana, o “menino”, o poeta, “continua por aí à procura/ de quem o queira e lhe diga” “mentiras de amor”, pois a solidão não é amada, como no caso de Baudelaire segundo Benjamin, mas apenas, sem embargo das aparências, a “mais certa vocação” do humano, mesmo porque ele morrerá, e sozinho. Não há mais “aristocratismo”, e o poeta mortal não enxerga no vindouro fim a menor possibilidade de transcendência. “O quam tristis et afflicta”, de A flor dos terramotos, não apenas insere o sujeito lírico no mundo dos vivos, como também o localiza numa depauperada finitude: “A cremação estava prevista/ para o início da tarde./ (Ao fundo, o Tejo,/ o vasto fedor dos vivos.)// (...) Talvez/ a nossa única vocação/ seja mesmo morrer.// Cidade real,/ lixo das quimeras todas,/ não ouças uma voz que não existe.”
Recolhe certas heranças da modernidade, pois, a poesia de Freitas, mas com elas lida e transforma-as, num gesto de radical contemporaneização. Como escrevi noutra parte, “esta poesia, se se centra na experiência, centra-se em pequenos eventos construtores da experiência do indivíduo que vê perdida, desde muito, qualquer possibilidade de grandiloqüências”: assim a vida, assim a cidade. É claro que o nome de Cesário Verde faz-se inevitável quando o tema da cidade e da decadência se coloca em poesia portuguesa, ainda mais sendo Cesário um dos fundadores da modernidade na história dessa poesia. Não será por acaso que seu nome apareça em “Escudos humanos”, de A flor dos terramotos, justamente próximo a um sintagma recém-escrito: “Não será por acaso que estamos/ na rua Cesário Verde, número trinta”. Mais uma vez a poesia de Manuel de Freitas revela-se sofisticadíssima no trato com a linguagem poética enquanto modo possível de relação com o real e com a tradição: se Cesário cantou as “nossas ruas”, tendo-as visto entre a atenção, a solidariedade e o desejo do escape, nada mais revelador, ao mesmo tempo, da homenagem e do esvaziamento, que ver o nome do poeta transformado em nome de via pública. É em Camilo Pessanha, no entanto, que se podem encontrar, já que o álcool é um dos modos de o indivíduo se relacionar com seu tempo e seu ambiente, as primeiras sugestões, no princípio da modernidade literária portuguesa, daquilo que Freud chama de “amortecedor de preocupações”. Também algum Sá-Carneiro e algum Álvaro de Campos, por exemplo, recuperarão – sobretudo o último destes dois parceiros – tanto a temática da cidade como a da embriaguez. Vem ao caso agora investigar, já que os quatro poetas recém-citados, cada um a seu modo, não deixam de sugerir certa ambição evasionista, se o mesmo ocorre na poesia de Manuel de Freitas. Cito o final de “Escudos humanos”:
“Até amanhã”. Nada podemos fazer. Oferecemo-nos como escudo ao peso inútil de mais um dia. A guerra já está ganha, a morte é garantida e um poema, infelizmente, não é uma arma química.
A resposta, portanto, é não, retumbantemente não. “A guerra já está ganha” de perdida e a “morte” não resultará em metafísica nenhuma. Ao poeta não resta sequer a possibilidade tão contemporânea de uma ação terrorista, apesar de estar, ele, “contra todos”, como escreveu um dos autores mais amados por Freitas, Herberto Helder – tão amado que mereceu daquele uma atenta leitura de seu renegado romance Apresentação do rosto, intitulada Uma espécie de crime: apresentação do rosto de Herberto Helder. Aliás, o (impossível) terrorismo abordado há pouco me faz pensar que este sujeito lírico, se residente no mundo dos vivos e sem possibilidade – nem a da morte – de evasão ou transcendência, enxergará a poesia, além de tudo já levantado aqui, como uma prática reativa, apesar de ciente da tremenda limitação de seu ofício. Cito um excepcional poema de Game over, “Spot”, cujo gatilho é uma propaganda de margarina veiculada na televisão:
O que, na verdade, me deixa saudades da censura, de uma censura nova que exterminasse imbecis e deixasse a terra a quem ela é, como deve ser, pesada.
“Um poema”, “infelizmente”, “não é uma arma química”, tampouco é capaz de fazer vigorar um novo tipo de censura. O risco que “Spot” corre é imenso, pois nomeia, em Portugal, a “censura”, organismo que fez o país sofrer por várias décadas. E nomeia com audácia bastante para o uso do artigo: “a censura”. Trata-se, sem dúvida, duma “censura nova”, mas não há a menor gratuidade nesta sugestão politicamente incorreta: que democracia adveio do fim do fascismo salazarista? Como brasileiro, falo com Freitas: que democratização, por exemplo, dos meios de comunicação de massa, adveio do fim da censura promovida pela ditadura militar brasileira? A cracia que tem lugar no mundo de agora certamente não parte de demo algum, e a observação de tal panorama faz com que se possa afirmar: existe, sim, um caráter político na poesia de Freitas, ainda que a escrita não logre fazer muito a partir das “saudades”, já que não é capaz de modificar qualquer estado de coisas. Senão, vejamos – “Pompe inutili”, de A flor dos terramotos: “Os mortos sabem-no./ A sabedoria é inútil./ A poesia também”. Homenageia e condena a poesia, a um só tempo, Manuel de Freitas: ela é “inútil” porque ineficaz diante do mundo; por outro lado, “inútil” porque desfrutadora de certa liberdade e, por isso, livre da necessidade de ser útil. Viva, pois, a poesia, os “mortos sabem-no”, a poesia, uma espécie de cadáver em relativa liberdade, também o sabe: não há mesmo uma ferida demiurgia aqui?
Também a há em Isilda ou a nudez dos códigos de barras, de 2001, livro em que todos os poemas, exceto o último, são enunciados por uma personagem feminina, caixa de supermercado e vítima da pequena vida a que um indivíduo é submetido nestes tempos de “escudos humanos”. Apenas a “Coda” do livro é dita por outrem, um cliente que observa Isilda sem perceber que ela também o observa, pois é justamente ele o pretexto do penúltimo poema. Códigos de barras intitulam, exceção feita à “Coda”, todos os poemas do livro, por exemplo “5 010509 001229”; diz Isilda: “A minha sabedoria é muda, desumana:/ um dia enlouqueço ou fico para sempre presa/ a um pesadelo sentado, com barras transparentes”: a “sabedoria” de Isilda, “muda”, não teria voz não fosse a própria Isilda uma invenção do poético. Assim, é uma “sabedoria” “inútil”, como a “poesia também” o é.
Tal percepção é o que permite à obra de Freitas tratar com o passado, sabedora de que nada na escrita poderá mudar o que foi, mas poderá, ao menos, celebrar e fixar o que foi – fixar, Silvina Rodrigues Lopes ajuda-me aqui, diverge de tornar imoto: “(...) há modos de fixar os encontros, um deles é a escrita poética, que fixa sem imobilizar”. Saliento, sobre todos, um livro, Levadas, que é inteiramente composto pela memória familiar em reconstrução. Nenhum poema de Levadas tem título, o que sugere a existência, neste livro, duma organicidade cuja razão de ser é precisamente o passado do sujeito lírico. O livro é dedicado “para o meu pai”, num gesto de amor que tem continuação no poema de abertura: “Há um pai que não encontra/ a bota, o primeiro indício/ do desespero (...)”. Sim, existe “um pai” que se encontra mas não encontra, existe um pai que não mais se encontra quando o tempo passa e os anos se acumulam. Existirá apenas o pai fixado pela poesia, pois aquele que era visto e sentido pela criança não mais há, pois a criança tampouco há, tanto que será referida na segunda do singular: “Tinhas três anos, na Calheta./ Começava, só para ti, o fim do mundo”, pois basta que se nasça para que o mundo, numa assombrosa contagem regressiva, comece a acabar.
Acabo de falar em amor. Portanto, devo falar mais uma vez deste aspecto na poesia de Freitas, já que é um aspecto da poesia de Freitas. Suspeita aguda nesta altura dos acontecimentos: Freitas escreve uma poesia acentuadamente amorosa, mesmo que, dentre as facetas de amor que nela aparecem, esteja a que se vê, por exemplo, em “[Ferozmente sobre ti quase lambendo]”. Um exemplo de amor nesta poética é a quantidade de poemas dedicados a amigos e/ou que nomeiam amigos, mas já falei, ainda que mui brevemente, disto. Outro exemplo é Inês. De volta, pois, a Camões: “Estudos camonianos”, mais uma vez:
Estavas linda, Inês, e Camões decerto não se importará se eu disser que tinhas posta no lugar a carne inteira do meu futuro desassossego.
Aos poucos vai o corpo apodrecendo, gentil da terra furor de que esquecemos notícia e lastro (...)
Não preciso referir o verso camoniano com que Freitas aqui está em diálogo. Não preciso, mas quero: “Estavas, linda Inês, posta em sossego”. Já disse que muda o sentido a mudança da vírgula: o absoluto, a beleza de Inês, torna-se relativo. E “Camões/ decerto não se importará” se a nova Inês não for morta (ainda). Mas, como “Aos poucos vai o corpo apodrecendo”, morrerá também a nova Inês, sem que, no entanto, o amor entre o que a canta e a própria deixe de fazer sentido: é a mesma Inês, por exemplo, quem recebe de seu amado um livro inteiro, Qui passe, for my ladie (2005), lançado em edição de autor e que tem como dedicatória “para a Inês, no dia do seu aniversário”. “Estudos camonianos”, não por acaso, reaparece neste livro. Ou seja, mesmo diante duma massacrante realidade – o mundo e o tempo, a vida e a morte –, Freitas, ainda que sem arroubos de poeta romântico, tampouco sem ignorar tantos inexoráveis massacres, ama. Com certo acanhamento? Talvez, mas tal se deve a uma consciência do poeta da fragilidade da linguagem, da linguagem poética e do próprio amor, evidenciada não apenas em “[Ferozmente sobre ti quase lambendo]”, como também em “Baile de finalistas” e em “Pedaços de vinil com lama”, para ficar apenas em três exemplos. É mister citar algo do poema final de Qui passe, for my ladie, “She lives by the castle”: “Meu amor – assim começavam/ quase sempre os poemas/ de que menos conseguia gostar”. “Meu amor”, pois, não cabe na poesia? “E assim, meu amor, acaba este poema”. “Meu amor”, pois, cabe na poesia, desde que caldeado com uma reflexão acerca da própria poesia e do mundo em que a poesia se coloca, um mundo não apenas de amor, mas de horrores e solidões. A poesia, porém, é a poesia, ou seja, uma realidade que difere um bocado do próprio real. Quero terminar este escrito com os versos de Manuel de Freitas que, ao contrário de cristalizar os textos e pretextos de sua poética, acaba por dizer outra coisa, não necessariamente construindo uma contradição, mas dizendo, efetivamente, uma outra coisa: “(De resto, será o ‘real’/ assim tão real?”), deste jeito mesmo, entre parênteses – o poema, de Game over, tem o sugestivo título de “Arte poética I”. Volto ao sintagma que emprestei de Freitas para nomear este prefácio: não será “a ferida altivez do demiurgo” o que possibilita o entendimento de que o próprio real possui margens, a serem inventadas pela poesia, de irrealidade? Não sei. Mas sei que estamos diante dum poeta, não obstante sua pouca idade e sua furiosa contemporaneidade – o que poderia, reconheço, constranger afirmações mais judicativas –, cada vez mais necessário. Cada vez mais necessário neste mundo, por causa deste mundo e porque, demiurgo que é, sabe bem que há, apesar de tudo, “versos de imponderável beleza”. Ainda bem. |
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