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leia o prefácio de Ida Alves Ferreira
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Gênero Poesia Capa Dura Formato 19,5 x 14,0 Páginas 116 Preço R$ 25,00
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De paisagens e jardins na poética de Luís Quintais Ida Alves Ferreira
Vi o Luís Quintais pela primeira vez em janeiro de 1999, em Lisboa, numa noite fria e chuvosa, quando entrei numa das salas abertas do Palácio do Marquês da Fronteira, atraída pela audição de três poetas portugueses contemporâneos, e de imediato simpatizei com seu rosto jovem e tímido. Era uma sessão de poesia meio intimista, com um público pequeno que não ultrapassaria trinta pessoas, sentadas próximas dos poetas que compunham a mesa da noite: Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice e o mais novo, Luís Quintais. Os poetas dialogavam entre si, numa espécie de desafio poético, cada um lendo um poema seu que provocava, pelo tema ou pela linguagem, a leitura de poemas dos outros companheiros de mesa. O desafio corria livre, os poetas pareciam se divertir com o jogo, sorriam ou mesmo riam, e o público acompanhava aquela partilha de palavras que, de repente, suspendia o tempo e nos fazia esquecer o mundo lá fora, onde a poesia continua cada vez mais sem lugar. Nesse momento, ouvi pela primeira vez poemas de Luís Quintais e gostei tanto que, após a sessão, busquei conversar um pouco com o jovem poeta o qual, contente com o meu interesse espontâneo, acabou por me oferecer um exemplar de seu primeiro livro, A imprecisa melancolia, de 1995, em edição bilingüe português–espanhol, livro que recebera o “III Prêmio Aula de Poesia de Barcelona”. Assim, quase por acaso, conheci uma das novas vozes da poesia portuguesa contemporânea. Agora, quase uma década depois, reencontro o poeta com mais informações a respeito[ii] e mais seis livros de poesia publicados - Umbria e Lamento (ambos de 1999), Verso Antigo (2001), Angst (2002), Duelo (2004) e Canto Onde (2006) - alguns premiados e reconhecidos como obras que confirmam a importância dessa voz poética no panorama da poesia portuguesa mais recente. Duelo, destaco, livro forte e belo, recebeu em 2004 o PEN Clube Português de Poesia e, no ano seguinte, o Prêmio Luis Miguel Nava – Poesia. Numa leitura global de seus poemas, continua significativo, ainda hoje, o título de seu primeiro livro: Imprecisa Melancolia. Realmente, o sujeito lírico que transita nos poemas oscila na sua imprecisão de ser e desvela a melancolia presente nas diferentes experiências do cotidiano de um mundo frágil e incerto, na vivência de coisas efêmeras, construindo uma escrita de observações breves, de relances de olhar, de sensações imprecisas, que vão formulando a irremediável solidão de cada um. No livro Umbria, por exemplo, constituído de quatro partes intituladas: “I- As coisas que se iluminam, II- A trocada voz humana, III – As cidades, os círculos, os exemplos e IV- As imagens quebradas”, os quarenta poemas reunidos apontam intensamente esse espaço de sombra(s) em que circula o sujeito, deparando-se com o passageiro, o precário, a ausência, a perda, a experiência do tempo, enfim, que a epígrafe escolhida para o livro, um verso camoniano, “O tempo o claro dia torna escuro”, tão bem resume ao indicar uma trilha de leitura dessa poética. Versos como “Ninguém sabe quem sou, / um sinal / que no arenoso fundo / se apaga, /um gesto/ que no interior das águas / se deposita. / Ninguém sabe quem és, / náufrago rosto / desenhado / que à submersa luz / te condenas.”, do poema Identidade, que abre o livro, ecoarão ao longo das páginas para chegar ao belo penúltimo poema XI, no qual se diz: “A natureza do efémero doía-lhe; / a tarde vinha num crescendo / de coisas perdidas, nomes / esquecidos, / fragmentos do ilimitado / que o pensamento, / a vigília, / não conseguiam deter. [...] Na lenta aproximação / da morte estava o segredo / do esquecimento,/ a recitada glosa / da solidão.”[iii] “Glosa da solidão” que se une à “persistente solidão” que inicia o segundo poema[iv] do livro Lamento: “A persistente solidão. Nada veio mudar isso. [...] Recolhes as cinzas dos teus dias, as que se espalham / pela violência do voo, da breve ficção enunciada. / A persistente solidão desde o início. Desde o início, a tua morte / e este movimento de ligar as máscaras / que se soltam do teu corpo adormecido. [...]” . Assim, a escrita poética não só é uma continuidade, uma persistência frente ao provisório e ao passageiro, como é uma experiência de solidão ou um espaço solitário paradoxalmente partilhado pela leitura. Volto a lembrar que, naquele encontro de 1999, Luís Quintais estava ao lado de Nuno Júdice, poeta que iniciara a publicação de sua obra[v] em 1972 e cuja escrita era então uma tessitura de melancolia e de fina ironia que marcou livros como O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975), A Partilha dos Mitos (1981), Lira de Líquen (1985), Enumeração de Sombras (1989), Um Canto na Espessura do Tempo (1992), Meditação sobre Ruínas (1994), O Movimento do Mundo (1996), citando apenas alguns títulos. O encontro entre o poeta já reconhecido e o jovem poeta de primeiro livro era também, de certa forma, o encontro de vozes contemporâneas articuladas por sujeitos poéticos “mal situados” num mundo urbano cheio de artifícios e artefatos, de excessos por um lado e de escassez, de outro. Esse diálogo volta a ocorrer quando leio o poema dedicado a Nuno Júdice, “Pequena chama que implora extinção”[vi] (em Umbria), no qual Luís Quintais insiste numa interrogação poética de Júdice. “Perguntas-me onde começa a alma. // Não tenho respostas, mas posso pensar que se trata / de uma linha que se estende ao longo das paredes / através de um percurso que se desconhece, / de um percurso temido, e que por isso mesmo / se pretende assegurar regresso, / mesmo que esse regresso seja até ao ponto / em que, pela primeira vez, se assinalou / o desespero.” Ainda que diferentes no volume de escrita e nas escolhas poéticas, há, no entanto, entre os dois poetas, algo que os aproxima e aproxima seus leitores: uma atenção ao tempo e à finitude, ou melhor, a tensão do tempo e da finitude, uma contemplação crítica do cotidiano citadino, experiências de perda e de silêncio frente ao movimento contínuo, ruidoso e inflexível do mundo, um desejo de procura mesmo frente à impossibilidade de encontros. A cidade é, aliás, um espaço muito presente nos poemas de Luís Quintais e é percorrida, vasculhada, fragmentada por um olhar lírico que a absorve intensamente, intimamente. Em poema de Lamento, lê-se: “O que se torna visível depois do escuro / senão a espessura da cidade? / Distingo traços de lume / onde antes o dia apagava / qualquer sinal de estradas. / Carros percorrem-nas, / dirigem-se para ilegíveis pontos. / São luzeiros incendiando a cidade, / estes carros que a atravessam. / Mais do que isso, ali, naquela colina, / descubro uma passagem, um segredo guardado: o mapa da cidade / é escrito quando a noite me vence por dentro. / Táctil, cego, avanço para o fogo / que me devora.”[vii]; e no poema “Oráculos”: “[...] Descrevo uma cidade através de indícios de corrosão, / o que o olhar ao acaso recolhe e reparte: / estuque fracturado, oxidadas caixas de correio, / portas já sem número, janelas estilhaçadas. [...]”[viii]. O par natureza-cidade estará presente em seus livros não em oposição nostálgica, mas em igualdade, espaços de artificialidade e aprisionamento. “Eu sou aquele que longamente / observa e escuta. / Procuro uma imagem, / um resíduo da experiência. / Procuro um exemplo. / Uma figuração da luz. / Uma voz mistura-se / com o rumor das acácias. / Um sinal de trânsito esplende / a rubra ruína. - // Voz, vento, ferrugem.”[ix]. Em entrevista, Quintais comenta:
Dou por mim profundamente interessado em tudo o que tem a ver com uma natureza artefactual. Tudo se passa como se a natureza – a natureza de que nos falam os românticos, por exemplo – deixasse apenas em nós uma vaga presença de nostalgia e perda. Mas mesmo assim sou menos receptivo a esta visão elegíaca da natureza do que se poderá pensar. Eu penso (talvez levado pelo meu pessimismo antropológico) que a natureza é o cárcere (um cárcere orgânico) do qual não há saída. Nós simplesmente estamos a criar outra natureza, e a minha poesia é também o testemunho disso”.[x]
Da cidade à floresta, das ruas aos jardins, percorro caminhos na poética de Quintais e encontro paisagens diversas sempre em mutação, configuradas pelo sujeito a partir de uma aproximação emocional/pensante do mundo, que faz transitar o interior para o exterior, o exterior para o interior, consciente de que é na linguagem que a paisagem surge. Já Jean-Michel Maulpoix, em Du lyrisme, explicou que “le paysage lyrique est plus qu’un état d’âme. Le sujet ne se contente pas de s’y contempler comme en un miroir, ni d’y verser ses émotions. Il le choisit et le structure, lui prête les figures les plus inattendues, le détaille ou le réduit à presque rien, l’invente, le découvre en soit et se découvre en lui....Il se situe dans l’univers en le recomposant; son identité est liée à sa localisation.”[xi] E o poeta escreve: “Algures, ao longe, vejo a pequena árvore – a palmeira / dobrada pela força do vento (que me persegue desde / o princípio da palavra e que agora retomo) - / / e a paisagem cerra-se de signos / que me despertam para a natureza perfeita das pedras, / vogais, vagarosas sílabas ou fronteiras entre objectos: [...]”[xii] São, assim, recorrentes em diversos poemas a nomeação dispersa de elementos da natureza (árvores, flores, frutos, floresta, mar, rios, pedras, águas, vento, céu, aves e outros animais) a figurar espaços e vivências perdidos no tempo, com retorno apenas na memória do poema a partir da ordenação do precário e do mutável (ecos do desconcerto camoniano?). Dessa forma, pode-se dizer que a poética de Quintais se faz de muitas paisagens que se interpenetram, paisagens exteriores que se cruzam com paisagens interiores, da memória, da imaginação, da escrita, formulando-se uma experiência não de apreensão do real ou de sua estabilidade, mas sim de forte fluidez e errância, constituindo-se uma “líquida paisagem” que, talvez seja, como metáfora, a imagem mais representativa dessa obra poética[xiii]. Em contrapartida, há também em sua poesia os jardins, esses espaços artificiais de natureza, planeados e ordenados como refúgios de beleza e de harmonia que o mundo, para além dos limites de um jardim, não pode proporcionar. Da natureza instável aos jardins urbanos, persigo a idéia de que nessa escrita há uma vivência fortemente crítica e melancólica da poesia e da nossa vontade comum de representação do mundo, sabendo o poeta que não há mais pertença a um lugar a não ser como ficção transitória e frágil. Vale transcrever o poema “Jardins de fim de tarde”, do livro Lamento:
Jardins de fim de tarde são jardins diuturnos: alongam-se pelo tempo e submetem-se ao labor dos homens e da usura.
Jardins de fim de tarde são espaços feitos de geometria que fulguram. A razão humana esconde os jogos da natureza: na sua periferia há plantas num exotismo de sombras, outrora classificadas, agora já sem nome, sem porfia que lhes atribua clareza, que lhes meça a verticalidade, que lhes identifique as domesticadas formas.
Jardins de fim de tarde são lugares onde se conquista a ordem, a contemplação vária das espécies, para se inventar de novo o nada, a fronteira onde um ébrio sonho vegetal aniquila a medida, a civilidade.[xiv]
Essa experiência de precariedade atravessa toda a sua obra, seja formalmente, quando dominam os poemas curtos e os versos breves, com imagens sempre em metamorfose, seja pelo conteúdo reflexivo que se detém sobre os seres mais frágeis: a criança, filho real, “Dedos frios de infelicidade percorrem o rosto do meu filho. / Será apenas uma representação desse mundo cujas leis de amor / e morte // compõem a casa onde a vigília se anuncia?”[xv], ou filha imaginada, “Ao olhar os olhos da minha filha, leio / sob a inocência da carne da manhã / Escondidas, alusões de morte em que não reparo./ [...] / Estas especulações azedam ao sol./ Eu não tenho filha. Não desejo nenhuma.”[xvi], ou sujeitos diversos que atravessam as histórias do sujeito lírico e, de repente, vão-se, perdem-se, desaparecem, como o amigo que se vai para sempre – “Meu amigo, seta cravada no alvo da despedida”[xvii]-, a mãe, o pai ou a rapariga morta, “És o mundo interrompido que procuro. És o tecido que se toca e devolve a sua cálida textura. Tão clara és a meus olhos. Tão sem ressentimento. Tão morta.”[xviii]. Mas principalmente é o poema este ser necessariamente precário, feito de memórias perdidas, de tempos passados, de olhares do presente móveis e inconstantes, de fragmentos, restos diluídos na linguagem: “refugiei-me / num delírio de imagens, // de artefactos, de sinais dispersos / sobre a terra.”[xix] São os poemas “arquivos” que nada guardam, que se fecham e se abrem num movimento contínuo de busca de algo impreciso e indizível, não contendo a água que é a escrita. “Em busca de uma outra síntese entre a noite e a manhã: / o primeiro verso, a água que escorre a contra-luz / do primeiro verso. // Dar o mundo como adquirido, depois rejeitá-lo. / Maneiras de dizer o novo e encontrar escolhos / em todos os sítios onde a música irrompe. // Descrever uma situação e ser condenado pela memória. / Tudo começa na inutilidade dos fragmentos / descritos um a um, ou nas suas invisíveis conexões: // [...] cada palavra que se repete por uma voz que se desconhece, / a voz das palavras no tempo de cada início.”[xx] Poética extremamente visual, como a crítica aponta com insistência, temos um sujeito poético que aparentemente busca fora de si, no mundo olhado, contigente, uma direção, sentidos, uma possibilidade imprecisa de segurança, mesmo sabendo que tudo é débil e pouco estável. Institui-se, dessa forma, uma poética crítica da própria subjetividade e do estar na linguagem, questionando a escrita como representação de mundos, a realidade como impossibilidade. Configura-se também como uma poética de paisagens cruzadas, na medida em que o olhar muitas vezes se fixa em fragmentos do real, em objetos cotidianos e banais e vai se deslocando em direção a um horizonte que indicia distância, errância e perda. O olhar erra como erra a escrita, embora ainda seja o poema um espaço, uma outra natureza partilhada. Anoto o que afirma Quintais, em outro momento da entrevista já referenciada: Todo o real é também uma construção, uma invenção humana (na dupla acepção entre o descoberto e o criado). Por outro lado, dir-se-ia que sou um poeta desse real que os meus poemas constroem enquanto invenção verbal que é uma das modalidades do real. Mais: interessa-me investigar através da poesia (e não só) todas as modalidades de invenção do real. A natureza enquanto artefacto, por exemplo, é uma dessas modalidades.[xxi]
Sua poética assim parece exercitar o que defende o historiador e filósofo da arte Georges Didi-Huberman quando, refletindo sobre a arte minimalista americana dos anos sessenta e a crítica de arte daquele momento, afirma que “O ato de ver não é o ato de uma máquina de perceber o real enquanto composto de evidências tautológicas. O ato de dar a ver não é o ato de dar evidências visíveis a pares de olhos que se apoderam unilateralmente do ‘dom visual’ para se satisfazer unilateralmente com ele. Dar a ver é sempre uma operação de sujeito, portanto uma operação fendida, inquieta, agitada, aberta.”[xxii]. Interessante nesse sentido é o poema em prosa - forma, aliás, que o poeta utiliza com desenvoltura e com certa freqüência nos livros Angst, Duelo e Canto Onde -, intitulado “Demócrito por Borges”, em que confronta o excesso de ver como ordenamento do real, classificação e ilusória apreensão das coisas do mundo, com a necessidade de fechar os olhos e ver por dentro. Quintais aproxima-se de Borges para escrever:
Que sonhos escondem estes olhos cerrados a toda a luz? Dilatei o espaço, a ardósia sobre a qual o giz persegue a vida. Do pensamento fui distraído por tudo o que julguei ver. Cumpra-se este gesto. Ver é andar distraído como algum apócrifo autor está escrevendo. Ver é não reconhecer as massas imperecíveis em que se ergue a natureza. Ver é depositar soluções sobre o que sem solução persiste. As geométricas sombras no jardim? Sei que são a inóspita morada dos homens. Sei que as alcanço como medida, desígnio de mãos hábeis. Um hexâmetro não se compara ao que arde na floresta. O fogo vibra na indomável poesia e a poesia não é a convenção. Ver é a convenção das convenções. É o arbítrio dos homens. Não o arbítrio do pensamento. Uma rosa? Uma rosa virá quando pálpebras se fecharem. Sonharei a cinza que recobre a imarcescível rosa. Afastarei seu véu. Poderei contar-vos depois o que a soberba do ver vos recusa.[xxiii]
Numa escrita tão visual como a de Quintais, o paradoxo está exatamente na afirmação de T.S. Eliot que o poeta português recolhe em seu poema “A primeira lição da manhã” [xxiv]: “[..]: a natureza humana não suporta tanta realidade.”. A poesia, assim, é um desvio de olhar, uma confrontação permanente dessa insuportabilidade, criando meios e formas de ultrapassar o excessivamente visível para atingir outras paisagens subterrâneas, subcutâneas (diríamos...), por detrás dos olhos, ou seja, paisagens da subjetividade.
Nada se esconde. Tudo se revela. A geometria de pedra do edifício do outro lado da rua, solicita a ilusória impressão de que, perante mim, se ergue a solenidade de um templo.
Um pequeno pormenor no canto superior direito da moldura composta pela minha janela, desloca o acento para a extrema visibilidade de tudo. Em levitação, suspenso na irrelevância do que não vejo, um aparelho de ar condicionado traz-me a secular realidade para lá da janela.
A ilusão. Qualquer ilusão se quebra sob a demorada incisão do olhar.[xxv]
Luís Quintais dialoga, de fato, com uma tendência que se evidência em muita poesia portuguesa contemporânea: a melancolia como resultado inevitável de uma subjetividade urbana sem ilusões ou idealismos, que se vai constituindo de resíduos, de fragmentos, de pequenas e triviais emoções diárias da vida possível em nosso presente de rasuras, tão cheio da excessiva presença espetacular de tudo e, por isso mesmo, tão vazio, tão massificante e indiferente. Os títulos de seus livros reforçam a possibilidade dessa leitura: Imprecisa Melancolia, Umbria, Lamento, Verso Antigo, Duelo, Canto Onde, apontam as imagens precárias de uma realidade volátil e incerta. Um outro título seu – Angst – é fortemente revelador dessa perspectiva. Palavra alemã que significa temor, desespero, angústia (fr.angoisse), em filosofia é termo ligado a “temor resultante sobretudo da indiferença, da falta de objetivos ou de sentido no universo.”[xxvi] E, nesse livro, registra-se a barbárie do 11 de setembro de 2001, ou a barbárie de um mundo real sem saída:
Virá o dia em que também nós da torre de vidro para o vazio saltaremos. Em desamparada queda estamos já. Entre o salto e a derradeira palavra, lembrar-nos-emos de uma nuvem ou de um madrigal. De que nos serve o brilho ínsito em rápidos vidros durante a queda?
Turvamos águas. Nada mais.[xxvii]
E falando de realidade, falamos também da “paixão descritiva” que move essa mão poética, buscando, no entanto, o “lastro da imaginação”. Descrição é o procedimento mais comum adotado pelo poeta para a construção de suas imagens, mas essa descrição é sempre um colocar em tensão, um “duelo” entre o que se vê e o que se imagina, um estabelecimento de paisagens in visu, configurações de sentidos, formulações imaginárias que se fazem a partir de trilhas percorridas na língua portuguesa, na arte, na sua poesia e na de outros. Leia-se assim o poema “Visões do mundo”, no qual o sujeito lírico, contemplando um espaço concreto do seu real, a “Rua do Loreto”, vai compondo/pintando um quadro onde figura um recanto citadino banal e comum, mas sua “realidade” vai se diluindo e do espaço in situ chegamos ao in visu, a partir da artialização, como Alain Roger nomeou o mecanismo da “metafísica paisagista”, passagem da natureza à cultura, ou do concreto e indiferente ao abstrato e motivado, figurações do imaginário[xxviii]. “Rua do Loreto. Todas as visões do mundo são parciais. / Como uma invenção de Vermeer / as traseiras de um edifício antigo / podem ser os limites da minha moldura. // [...] // Em baixo, uma varanda onde nunca está ninguém. / Nada sei da ausência que a varanda desvenda. / Do lado esquerdo, o parapeito alto confere-me a certeza / de que os meus domínios foram encontrados. // Neste perímetro de luz / procuro a consistência dos sentidos. / O território com que se abastece uma paixão descritiva, / o lastro da imaginação.”[xxix] Escrita intimista e pessoal, poderíamos dizer “arte privada”[xxx], o sujeito aí se declara um observador ou contemplador, mirando no perto e próximo o distante e o longínquo, “a interrogar, de novo, a invisibilidade / das coisas que se iluminam por dentro”[xxxi]. Uma poética para além do jardim, então? Ou uma poética que, no jardim, imagina o além dos seus limites? Imprecisa fronteira, inconclusa resposta. Sua poética é sutil e silenciosa, quase uma janela aberta na página em cuja moldura poeta e leitor se detêm frente a um mundo cotidiano e indiferente. Seus versos não são desafiadores ou sarcásticos como os de alguns de seus contemporâneos, nem ingênuos ou deslocados frente ao seu tempo, são apenas (e com esse advérbio indico uma habilidade de depuração do poeta) versos que se efetivam como reversos de emoções finitas e parciais, versos que continuam a existir mesmo após a célebre afirmação de Adorno de que “escrever um poema após Auchwitz é um ato bárbaro [..]”[xxxii], acreditando, ao contrário, que a poesia deve continuar a se fazer no seu ofício de inquietude e cisão. Dessa forma, em Duelo, o poema ”A inútil poesia” problematiza essa relação entre poesia e testemunho (à Jorge de Sena...):
[...] Como podemos nós recuperar o sopro que exaspera domínios no escuro, a inumana beleza de um pavão que abre a sua cauda na noite iluminada, e dizer depois na rasa voz de quem abandonou a inflexão retórica da sua voz, Varsóvia, Treblinka, Celan, aldeias cujos nomes esquecemos – e é sintomático que os tenhamos esquecido – onde lâminas aceradas esquartejaram a eternidade de um rosto, lugares – porque em cada nome há um lugar – onde outros nomes se perfilam num vórtice de tempos que se abrem sobre tempos e gritos que se abrem sobre gritos, e pétalas se expõem ao mortal apuro de se ter sobre ombros a herança da qual não há despedida, somente um cobarde desvio, um conluio de silêncio e sangue?
Como esquecer? Como não esquecer? [...] Aquele que me lê deverá acreditar:
deverá acreditar que eu vivo perscrutando as águas mas dentro delas.[xxxiii]
E, por isso, o poeta poderá afirmar, em outra entrevista: “Talvez ela [a poesia] figure a única possibilidade hoje de uma metafísica secular (Stevens, outra vez): certamente uma extravagância.”[xxxiv] A poesia de Luís Quintais diz “o não-poder / a impossibilidade” de cada dia e talvez seja essa “impotência” sua força e sua contribuição, para que continuemos a viver o mundo num duelo permanente de visões: [...]
E trouxe a minha memória dos lugares a este lugar, trouxe a paz de um fim de tarde, a azáfama do dia
diluindo-se na silenciosa noite, trouxe a capitulação do passado, de viver longos anos nesta cidade
sem nunca aqui ter estado, trouxe um mapa-mundi de afectos sem saber do escuro depois da luz.
Dos trajectos por percorrer trouxe a vigilância inconformada, desmedida.[xxxv]
[i] Versos de “Postal ilustrado”, in Quintais, Luís. A imprecisa melancolia / La imprecisa melancolía. Barcelona: Lumen, 1995. [ed. bilingüe com tradução de Jordi Virallonga] ,1995, p. 28. Há também a edição portuguesa: A imprecisa melancolia. Lisboa: Teorema, 1995 [ii]Nasceu em Angola, em 1968, mas, após 1975, passou a viver em Lisboa, onde fez seus estudos universitários. Atualmente é professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, onde coordena diversas atividades da área, com pesquisa atual sobre as relações entre arte, ciência e cognição. Sobre sua poesia, afirma Gastão Cruz, em recensão ao livro Duelo, na revista de poesia portuguesa Relâmpago, n. 16, abril de 2005: “[...] [sua] obra tem sido construída com invulgar segurança, até atingir, em particular nos dois últimos livros publicados, Angst (Lisboa: Cotovia, 2002.) e Duelo (Lisboa: Cotovia, 2004.), um nível de qualidade artística que o coloca na primeira linha dos poetas portugueses actuais.” Acessado em www.relampago.pt, em 30 de abril 2008. [iii] Poema “XI”, de Umbria. Guimarães: Pedra Formosa, 1999, p. 59. [iv] Poema “aa”, de Lamento. Lisboa: Cotovia, 1999, p. 15. [v] Sobre a poética de Nuno Júdice, cf. ALVES, Ida Ferreira. Nuno Júdice: Arte Poética com Melancolia In: A repertoire of contemporary portugueses poetry in the global market.1 ed. Dartmouth, Ma: University of Massachusetts Dartmouth, 2005, v.1, p. 45-55. Possibilidade de acesso on-line: http://www.plcs.umassd.edu/plcs7texts/alves.doc [vi] Em Umbria, p. 12. [vii] Poema “Segredo”, em Lamento, p. 41. [viii] Ibidem, p. 29. [ix] Poema “Voz, vento, ferrugem”, em Duelo, p. 69. [x] Entrevista em www.poesiailimitada.blogspot.com/2006/01/lus-quintais.html . Acessado em 01/05/2008. [xi] Maulpoix, Jean-Michel. “Points de vue et paysages” in Du lyrismo. 3.ed. Paris: José Corti, 2000. p.339. “A paisagem lírica é mais que um estado de alma. O sujeito não se satisfaz apenas de nela se contemplar, ou de nela refletir suas emoções. Ele a escolhe e a estrutura, empresta-lhe as figuras mais inesperadas, examina-a detalhadamente ou a reduz a quase nada, inventa-a, descobre-a em si e se descobre nela. Ele se situa no universo recompondo-a; sua identidade está ligada à sua localização.” (tradução nossa) [xii] Poema “Arte poética sem disfarce”, em Angst ( 2002), p. 27. [xiii] Leia-se, por exemplo, o poema “Canção”, em Umbria (1999), p. 13: “Tão contrária ao resto / a pequena canção / que embala a morte. // Tão contrária ao dia / a estreita linha / que nos separa da alegria. // Tão cheia de vozes / que se anulam, / esta morada, // esta chegada // ao termo da viagem, // esta partida // para a noite-margem. / Tão fina esta lâmina / que fundo fere // a água, a líquida paisagem. / Tão esquecida / esta face, este rio, // a corrente que nos empurra / a treva / que nos impele.” [xiv] Em Lamento, p. 31. [xv] Poema “Página”, em Canto onde. Lisboa: Cotovia, 2006, p. 46. [xvi] Poema “Para a minha filha (Weldon Kees), idem, p. 54. [xvii] Poema “Arquivo”, em Imprecisa melancolia, p. 110. [xviii] poema “Homenagem a uma rapariga morta”, em Angst, p.78. [xix] Poema “vii”, de Umbria, p. 55. [xx] Poema “vi”, de Umbria, p. 54. [xxi] Cf. nota 10. [xxii] Didi-Huberman, O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 77. [xxiii] Em Angst, p. 33. [xxiv] Poema em prosa “A primeira lição da manhã”, idem, p. 71. O verso de Eliot está em Quatro Quartetos (1943), poema I: “Vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano / Não pode suportar tanta realidade.” (tradução brasileira de Ivan Junqueira, em Eliot, T.S. Poesia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p.200.) [xxv] Poema “Apologia da evidência”, em Umbria, p. 17. O poema apresenta a seguinte epígrafe: “The difficulty of the visible. Wallace Stevens”. [xxvi] Cf. Blackburn, Simon, Dicionário Oxford de filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p.15. [xxvii] Poema “11.09.01”, em Angst, p. 62. [xxviii] Cf. Roger, Alain, Court traité du paysage. Paris: Gallimard, 1997, p.10: [...] Mais si le paysage n’est pas immanent, ni transcendant, quelle est son origine? Humanine, et artistique, telle est ma ´reponse. L’art constitue le véritable médiateur, le ‘méta’ de la métamorphose, le ‘méta’ de la métaphisique paysagère. La perception, historique et culturelle, de tous nos paysages – campagne, montagne, mer, désert, etc. – ne requiert aucune intervention mystique (comme s’ils descendaient du ciel) ou mystérieuse (comme s’ils montaient du sol), elle s’opère selon ce que je nomme, en reprenant un mot de Montaigne, une ‘artialisation’, dont ce livre s’attache a démonter les mécanismes.” [xxix] Em A Imprecisa Melancolia, p. 46. [xxx] Leia-se o poema “Arte privada”, idem, p. 24. [xxxi] Versos de “Tema antigo”, em Umbria, p. 22. [xxxii] Cito a frase completa de Adorno: “escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que se tornou impossível escrever poemas”. No entanto, como discute Jeanne Marie Gagnebin, é necessário rever a interpretação equivocada que se vem fazendo dessa afirmação polêmica sempre referenciada. Cf. Gagnebin, Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Ed. 34, 2006, p. 72-73. [xxxiii] Em Duelo, p. 83-84. [xxxiv] Em www.rascunho.rpc.com.br (Rascunho Jornal Literário no Brasil, Curitiba). Acessado em 02/05/2008. [xxxv] Poema “Dos lugares a este lugar”, em A imprecisa melancolia, p.52. |
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