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leia o prefácio de João Pedro Fagerlande
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Gênero Poesia Capa Dura Formato 19,5 x 14,0 Páginas 115 Preço R$ 18,00
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João Pedro Fagerlande Após alguns anos de militância poética pelas ruas do Rio de Janeiro e Niterói, Julia Pastore agora traz as esquinas de sua caneta para a sala de estar da palavra : o livro . Os mais de dez livretos produzidos à maneira artesanal , vendidos a quase dez mil leitores neste percurso, se fundem com textos inéditos para compor a edição de Lugar-comum ( um pouco abaixo do nada ), esta bela estréia com que nos enlaça a jovem poeta . Para os que pensam que a compilação gráfica de uma arte nascida das calçadas abrandaria a face descarada de seu verbo, eis a resposta categórica de Julia: “Vá cuidar de seus versos!”. O cimento ainda se concretiza em muitas de suas páginas, mostrando ser a rua não apenas a origem, mas também um dos alvos de sua precisa língua: “um peteleco certeiro / me reintegra à merda num bueiro.”. Todo este despojamento irá se desdobrar ao longo do livro, se entremeando a um sentimento genuinamente amoroso. Esta combinação à primeira vista paradoxal – concreto e coração, buzinas e suspiros – aponta a complexidade da voz que aqui se ergue; uma voz que a cada verso é capaz de transitar por extremos aparentemente opostos, mas que acabam por encontrar um meio, um elo, como na imagem do cigarro (“um cigarro / aquecido com a cabeça / no teu peito”), em que se evoca um coeso diálogo entre a esquina e cama. E a cama é sem dúvida um dos pontos mais quentes do livro. Sobre ela, os corpos pastoreos dialogam no idioma primordial, em que a comunicação se estabelece da maneira mais exata e sublime (“Que falar / se deitei / e com tato / disse tudo?”). O sexo surge como a chave para a poesia de Julia, que, ao destrancar a porta de seu quarto, convida o leitor a subir em seu leito, para participar do êxtase que sustenta suas palavras. O sexo serve também como o ponto de partida para se pensar a feminilidade em Lugar-comum. Num contexto pós-feminista, a mulher, em vez de negar e tentar superar o homem, aceita-o como a metade de seu todo, uma metade imprescindível para a constituição de seu ser (“Toda sinto sua minha eu”). Algumas questões feministas ainda ecoam em sua fala (“Juramentos e flores: / todos murchos, / despedaçados”), mas é um novo olhar sobre a feminilidade que aqui se instaura, em que a mulher precisa possuir e ser possuída para sentir-se completa; rompendo os limites entre sujeito e objeto, ela busca a unidade carnal, que só com seu parceiro poderá ser alcançada. Traçando esta completude como mulher, Julia o faz também como poeta; desde o provocativo título deste livro até seu derradeiro verso, o leitor sentirá a profusão de vida na voz pastoreana, que, oscilando entre o sussurro e o grito, entre o quarto e a calçada, nos remete a sua magnitude, tal qual se revela no desfecho do poema Primeira magia: “Sempre existiu / dentro de mim / tudo o que o mundo move / e eu movo o mundo / desde sempre”. E pela poesia de Julia Pastore seremos agora movidos.
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